RIVERS AND TIDES – working with time

21 03 2010

A ARTE DO HOMEM É TRAZER À TONA A VIDA EM COISAS MORTAS

texto produzido a partir de reflexões provocadas pelo documentário: Rivers and Tides -Andy Goldsworthy working with time

Andy Goldsworthy, artista reconhecido com trabalhos de site specific e landart, em seus trabalhos, ao menos os que pude conhecer, transforma elementos da natureza em objetos de arte. Alguém desavisado, ou algum piadista, diria: e que artista não faz isso? Pega-se silício de Murano, e tem-se obras de arte, com papel artistas também transformam a madeira em obra de arte, etc.. Então é melhor ser mais preciso, com o que e como Goldsworthy faz suas obras.

Andy trabalha com os elementos brutos e inertes da natureza, qualquer coisa: da lã que despega da ovelha no pasto à hematita encontrada nos riachos do Canadá e/ou Escócia.  O que diferencia o trabalho dele de outros é em como ele transforma estes elementos através da própria natureza. Isso descrito fica quase filosófico, na prática tem uma simplicidade poética. Um exemplo, na “instalação”, as pedras, rigorosamente dispostas e ordenadas intencionalmente, compõem uma forma estética, em verdade bem simples, dois quadrados, o de fora preto e o de dentro branco.

A grande poesia está na constatação de que o objeto de arte não está contido apenas em si, nesta composição intencional: sua composição, sua construção “humanizada” pelas mãos do artista se enriquece quando incorpora a própria natureza da qual foi extraída, quando pelo decorrer do tempo e pela trajetória da incidência do sol, a composição muda de cor, se inverte, o preto agora está contido no branco. A natureza e o tempo desta finalizam o objeto de arte, de modo “natural”, determinando a natureza como elemento e participante na composição da obra, na transformação artística do elemento bruto.

Os termos “rigor” e “intenção” não devem aqui ser interpretados com uma conotação de racionalismo sistêmico, sua razão, diz ele mesmo, é de tentar entender os elementos, try to understand the Stone, seu método de trabalho tem pouco ou nada de semelhante com as construções complicadas e que requerem técnica e instrumentos sofisticados. Aqui o instrumento básico de trabalho é a sensibilidade, coisa rara nesse nosso mercado.

O lugar dá os aparatos, o subsídio, o amparo e as condições para o artista desenvolver a obra – o que caracteriza as obras site specific – mas Andy subsiste na natureza, nada é forçado. Ele não tenciona com a natureza, espera dela a oportunidade. Não há conflitos, porque ele dispõe de paciência e abdica do controle (ou da ilusão de controle). Goldsworthy, não controla, em grande parte de suas obras, o êxito das mesmas, está na dependência da natureza. Seu único trabalho desprendido dela é de tirar os seus elementos de uma dita inércia. Na permanência de serem o que sempre são: pedras, gravetos, gelo, folhas, flores, etc.. E como é bonito perceber que seu desapego abraça a ação da natureza, que “leva para outro caminho, para outro mundo”!

Está aí, neste simples gesto de reunir um número grande de flores dente-de-leão, colhê-las uma a uma entre a vizinhança de sua cidade e disso fazer um cordão amarelo no meio das alfazemas lilases, sua grande obra de arte: devolver para natureza a si mesma – sua beleza, sua essência orgânica que tudo transforma. Goldsworthy se coloca como mediador de transformações naturais. Ele modifica, altera o iniciar de um ciclo metamorfósico, mas Andy é apenas o semeador desse ciclo, só a maré, o vento, o sol, o tempo é que dirão o que isso será.

Ressaltando que claro, como artista, Andy Goldsworthy já delineou o que espera ser, reforço, há intenção no que faz, e muito bem clara e definida, mas de qualquer forma, como ele afirma, é preciso trabalhar com tempo, de acordo com a maré – o tempo então é o natural do meio, não há estipulações do artista no “fluxo natural” do tempo. A imagem que me vem à cabeça, vendo o documentário, mostrando seu processo de trabalho, é que Andy nunca deixou de ser aquele menino que sonha em construir um castelo de cartas e não se irrita fácil com a rajada repentina de vento, melhor, aprendeu com o vento, entendeu-o, e o que sai de suas mãos, ainda que não seja o tão sonhado castelo, é ainda mais belo!