SUSPENSÓRIOS

Beira quase os 60, tem um rosto juvenil e não fosse a ausência da barba, se assemelharia com papai noel. Tem as maçãs do rosto sobressalentes e levemente coradas com um róseo tenro. Os cabelos grisalhos são abundantes cortados à moda dos Beatles e são bem cuidados.

Abre um sorriso franco e gratuito, os olhos verde-claros grandes e honestos também sorriem, até mais que os lábios, deles exalam uma simpatia silenciosa, que reconforta e acalma. A altura é menor que sua força austera e maior que sua barriga.

Está segurando um livro, página marcada com a caneta, abre-o na mesa entre o pão na chapa e a média. Freud. Lê compenetrado, tão silenciosamente que nem se vê seus óculos. A respiração acompanha o fluxo da leitura vírgula. Um suspiro, uma frase entre aspas ou reticências. Uma síncope, a mão inquieta, se desconcentra. Olha o relógio enquanto toma um gole do café. Percebe que eu o observo e retoma a leitura. Silêncio desértico.

Veste-se impecavelmente simples, não significa ser simplório, apenas sem extravagâncias. Sempre usa suspensórios, é sua marca, sua identidade, lhe dá legitimidade para ser como é, lhe oferece reconhecimento dos desconhecidos. Suspensórios, um artigo incomum, faz dele uma exceção, lhe dá destaque e impõe certa formalidade e distância. Duas estreitas fitas elásticas fecham e suspendem qualquer investida de aproximação. Não é uma constatação frustrante, ele todo é uma figura aberta e simpática, não fosse os suspensórios…

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