PERSONAGEM

Num ônibus duas amigas por acaso se encontram:

– Oooiii! Tudo bem?

– Tudo e você?

– Ah… bem. Que conta de novo?

– Nada, estou na mesma, trabalhando, estudando, vivendo. E você, está com uma cara boa…

– Dá para perceber, é? [ri] Ah, estou num momento muito bom, muita coisa acontecendo, estou com um emprego novo, tudo indica que passei na prova do mestrado…

– Que bom! Fico muito feliz por você, você merece, deu um duro, se esforçou…

– É, valeu a pena afinal. Mas o melhor de tudo foi que conheci uma pessoa.

– Ah é? Sabia! Essa sua cara não me engana, de onde que é?

– Conheci de uma maneira um tanto atípica…

– Me conta! Com esse trânsito dá tempo de me contar todos os detalhes.

– Você sabe que eu não bato bem das idéias, né? Eu sou meio louca.

– Sei sei, não enrola e conta logo!

– Estava no ônibus, e naquele dia estava especialmente feliz, de bem com a vida, e o ônibus estava meio lotado fiquei em pé de costas para a porta, meio de lado, cantando, toda contente. Tinha um cara na minha frente a uma certa distância que ficou me olhando, no mínimo devia estar se divertindo com a cena. Eu estava cantando, meio dançando de tanta animação e contentamento, detalhe, não estava ouvindo música, cantava de feliz mesmo. Aí quando percebi que ele ficou me olhando resolvi fazer uma prova comigo mesma – normalmente eu iria me encabular, evitar os olhares e parar de cantar, enfim, ia travar. Fiquei obstinada que não iria deixar isso acontecer, continuei cantando, só que agora eu cantava para ele, olhando fixamente para ele, sem desviar o olhar.

– Nossa! Mas o que ele fez?

– Ficou desconcertado, né? Mas como estava cheio e ele estava a uma certa distância não fez mais do que continuar olhando, mas já com certa segurança, porque percebeu tudo. Aí fiz uns jogos de olhares, incorporei uma personagem mesmo, sabe? Parecia que não era eu ali. Meu ponto estava chegando e me voltei para porta, olhei para ele e vi que ele ficou surpreso que ia descer, o ônibus parou disse tchau e desci.

– Como assim? Mas e aí?

– Calma… Bom, desci com a auto-estima lá em cima, foi incrível, indescritível a sensação que senti. Fui andando e de repende ouço do meu lado: não estou acreditando que você ia mesmo embora depois disso tudo.

– Era o cara? Nossa, que incrível essa história, dá um filme!

– Era ele, fiquei surpresa. Troca de olhares é comum, mas normalmente a coisa acaba por aí, não esperava que ele fosse descer e ir trás de mim. Bom, aí ele disse que não acreditava e tal e falou que eu tinha feito ele descer antes do ponto. Eu ainda estava com uma personagem incorporada e não perdoei, seguiu assim o diálogo:

– Eu te fiz descer? Não, não, você desceu porque quis, nem falei com você, como posso ter feito isso?

– Me olhando daquele jeito você não precisava dizer nada, por sua culpa eu desci.

– Olha, me desculpa mas não tenho culpa das escolhas e atitudes que toma.

– Você é difícil, hein? Qual é seu nome?

– Qual nome você quer?

– … Meu nome é Vinicius, posso saber seu nome?

– Camila.

– É Camila mesmo?

– Você queria saber meu nome e não acredita que ele seja verdadeiro, por que não escolheu um nome qualquer?

– Porque quero te conhecer!

– E que diferença faz meu nome se você ainda não me conhece, e se me conhecesse seria muito mais que um nome.

– Você já é mais que um nome, mas preciso saber como se chama, para associar seu significado a ele.

– Se é só por isso, por que não escolhe qualquer nome, que diferença vai fazer, se é o significado que importa e ele é relativo ao valor que você deu a ele e não a meu nome pessoalmente?

– Camila, certo?

– Como quiser.

– Tenho que trabalhar agora, mas queria te encontrar mais tarde, conversar mais, te conhecer, poder ser?

– Pego um outro ônibus ainda e não volto mais aqui.

– Você é de outra cidade?

– Ou de outro planeta…

– Pare de brincar! Sério, me dá seu telefone, te ligo e marcamos um dia.

– Não, obrigada.

– Você me fez descer à toa?

– Não te fiz descer, você escolheu descer, não te prometi nada.

– Posso te acompanhar até o ponto pelo menos?

– Não vou te impedir.

– Você não ficou interessada, não quer me conhecer?

– Acho que não precisamos nos ver mais, não vai ser a mesma coisa.

Não precisamos nos ver mais, mas podemos querer nos ver, eu quero te ver, não me importa que seja diferente disso. Você quer me ver?

– Aí vem meu ônibus. Tchau.

– Como assim? Você deixou o cara lá, e entrou no ônibus?

– É, dei um selinho nele e subi no ônibus.

– Não entendi, você não estava afim dele, não viu ele mais?

– Não. Eu encorporei um personagem, estava fora do meu controle, mas me senti tão bem!

– Que coisa! Nunca mais o viu, não tem vontade de vê-lo?

– Nunca mais vi, nem penso em vê-lo, ele pertence a um personagem.

– Você é que é a atriz, mas ele era real…

– Foi tão mais interessante e sensual vê-lo vacilar, duvidar, argumentar o que não tinha argumentos.

– Não seria igual se vocês se vissem de novo.

– Exato! Acho que ele entendeu, senão teria entrado no ônibus.

– Ou talvez ele tenha tido a esperança que você descesse no próximo ponto e corresse até ele.

– Que piegas!

– Verdade. Mas só uma dúvida, quando entrou no ônibus, ficou olhando para ele?

– Claro, mantive os olhos fixos nele o tempo todo, por quê?

– Ah nada. E o que ele fazia no último momento em que o viu?

– Não me lembro… Talvez estivesse tomando rumo para o trabalho, sei lá eu.

– Você gostaria que ele tivesse entrado no ônibus com você?

– Não, gostaria de ficar ficado no ponto com ele.

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