Maternidade

Um bairro afastado e tranquilo, num ritmo defasado do centro da metrópole. A rua, uma das principais que acabara de ser asfaltada enriquecendo ainda mais as possibilidades de uso, era tomada diariamente por crianças e adolescentes. De todas as idades, de todas as classes sociais, estes jovens tinham um grande quintal comum e solidário, as brincadeiras não tinham limites, nem fronteiras. Os terrenos baldios eram campos experimentais das curiosidades juvenis, esconderijo de travessos, abrigo de consolos e segredos.

As crianças crescem, os interesses mudam, o bairro urbaniza-se, as famílias compram carros e motos, a rua aos poucos perde sua feição viva e animada, tornando-se desértica, rarefeita e violenta. Isso não perceberam tão cedo, precisou haver uma ruptura concreta com aquilo que nunca mais voltaria a ser o que foi. Tinha 12 anos, já sentia atração pelas garotas, por uma em especial, mais velha e carinhosa. Ela tinha um namorado skatista. Resolveu que naquele fim de semana, naquela tarde iria aprender a andar de skate.

Descia a rua sentado no skate, sentia o vento refrescar o rosto suado, sorria feliz pela sensação de liberdade e fluidez de sua juventude. O barulho das rodas no asfalto tomavam seu corpo, o ruído bradando nos ouvidos, as pequenas pedrinhas trazidas das ruas de terra faziam o percurso da ladeira ter uma leve trepidação, estava absorto no momento quando ouviu seus colegas do cume gritarem, virou com o sorriso usual para atrás, certo se tratar de algum comentário sobre seus não avanços como skatista, viu um carro se aproximando velozmente ladeira abaixo, inclinou o corpo para o lado esquerdo e o skate mudou a rota para mais próximo da sarjeta.

Levantou-se e foi lançado 200 metros à frente, num vôo livre, inconsciente, sem nem dar-se conta que caía batendo a cabeça na guia da calçada. Ficou em coma e o bairro todo em choque. Durante aquela semana a rua não foi tomada por crianças brincando, mas por correntes de vizinhos num esforço coletivo de trazê-lo de volta, fazê-lo acordar. Todos os jovens tão despreocupados e libertos de medos tão usuais da cidade grande viram-se de repente perdendo a inocência, a pureza, perdendo um amigo. Durante uma semana ficou em coma e não resistiu, faleceu no segundo domingo de maio. Deixou família e amigos, deixou sua juventude. Deixou uma rua órfã, vazia. Nunca mais se brincou de esconde-esconde, nunca mais se jogou truco, nenhum patim rodou mais ali, ninguém mais jogou taco, a rua não foi mais pintada, nenhum pé descalço saltitante pisou ali. Sua mãe mudou de bairro.

Texto em memória aos 10 anos do luto materno, símbolo da morte de um bairro todo.

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