Saudade III

13 01 2010

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade

Aos poucos que aqui sentiram a minha falta, aos que distantes recordaram-se de mim. Àqueles que na pressa, esqueci. Aos de todo dia, que por rotina, não vi ou negligenciei. Aos do peito e de sangue, da mesa e da roda, do coração: estou aqui! Penso em todos e ai! Esqueço de mim. Que partilha mais desastrada, quando vejo… já sumi. Meses de silêncio, num luto amargo, por vezes o amargor até me daria doces linhas. Mas nem em pensamento. Agonia, agonia!

A saudade é maior para aquele que tem que partir, pois duas vezes sofre: por ir e por saber da saudade que outros irão sentir. Minha partida foi súbita, sem despedidas, sem avisos, nem bilhetes. Tão de repente também é meu regresso! E volto sedenta, querendo recuperar o tempo ausente, diminuir o vácuo entre o passado-presente! E esses poucos dias de novo ano me inspiram em querer renovar um pacto. De aqui escrever pensamentos, crônicas, textos, poesias e aliviar meu peito.





Sem assunto

20 05 2009

Diaxo! Sentir o vácuo entre a urgência para se expressar e a estupidez de um assunto vazio impede a fluidez, a naturalidade, o contínuo desdobrar dos pensamentos. Falta ócio, falta abertura, existe uma carência absoluta de tranqüilidade para simplesmente ser, estar – Dasein.

Apontar o dedo para o ar e isso não significar absoluamente nada, isso sim é liberdade!

Freiheit! So was für ein herrliches und unfassbares Gefühl! Wenn sie erwünscht ist, ist sie gespürt.





DE MUDANÇA

22 03 2009

 

 

mudo-me

aqui nessas caixas estou em parte

            livros de arquitetura

            de arte

            de literatura

 

mudo-me

sou tudo que tenho, verdade

encaixotei as lembranças

embrulhei minha cidade

me levaria toda como herança!

 

mudo-me

e os restos vão-se com a idade

tudo que fui, fica

me despego da vaidade

que me importa se fui rica?

 

mudo-me

guardo fotos antigas

            dos lugares

            das amigas

            dos amores

 

mudo-me

livre vôo como as aves

sem passado não estou morta

vívida cintilo; entrego as chaves           

sem pensar, nem atino ao fechar a porta

 

mudo-me

carregada pela euforia

do que ainda sou capaz

que vontade me daria

de ir sem olhar para trás





Homenagem aos formados e formandos

15 03 2009

Incêndio na Escola de Arquitetura

de Andrêi Vozniessiênski

Incêndio na Escola de Arquitetura!

Nos salões, nos projetos.

Anistia para as prisões!

Fogo! Fogo!

Sobre a fachada adormecida,

desavergonhada, impudente,

verdadeiro gorila

de nádegas vermelhas,

escancara-se a janela.

Já escrevemos as nossas teses,

está na hora de defendê-las.

Dentro do armário, debaixo de lacre,

riem as notas baixas que recebi.

Cinco anos, cinco invernos se esfumaram

como um lampião de querosene,

Karinótchka querida.

Puxa, como queima!

Lembretes, noites em claro a estudar,

ide todos para o diabo que vos carregue!

E vós, olheiras profundas,

adeus, adeus!

Adeus, arquitetura!

Calcinai-vos

estábulos decorados com cupidos de gesso,

Caixas Econômicas em estilo rococó.

Juventude, fênix imbecil,

eis o meu diploma que se incendeia.

Brandes uma saia vermelha

e tua língua faz-te cócegas!

Adeus, tempo dos limites. A vida

é valsa de lareiras esbraseadas.

Ardemos todos: ninguém escapa.

Viver é queimar-se.

Que fechas, que guindastes

nasceram do fogo

ao passar sobre o papel,

sua pista de decolagem?

Mas amanhã, de um punhado de cinzas,

mais venenosa do que uma colérica abelha,

saltará a ponta do compasso

para enfiar-se em teu dedo.

Tudo se queimou, está tudo limpo

e cheio de suspiros de saudade.

Tudo se acabou?

Tudo recomeça!

Pois então vamos todos para o cinema, ora!





Para inaugurar, champagne.

7 01 2009

Eu ensaio um blog faz tempo, e acabo desistindo logo depois de me entrevar e debater com essa coisa chamada computador, se existisse um site de busca de blogs ociosos vocês entenderiam o que isso quer dizer. Não, eu me dou bem com tecnologias e afins, o computador é meu parceiro, mas ôôô sujeitinho complicado!

Mas isso é um boas-vindas, um approach, um se aprochegue, um chega mais. Embarque na linha 10, com itinerários um tanto obtusos! E para inaugurar meu primeiro blog efetivo, Champagne!