Dia dos Namorados (ou Duas Casas)

14 06 2010

16 de março 2009 – Casa 1

Olha, boa sorte com o desenrolar dos seus projetos todos. Isso de se mudar de casa eu não senti nunca na minha própria pele – moro na mesma casa e tenho aqui o mesmo quarto com quase que também os mesmos móveis de sempre. Enfim… Houve épocas em que eu pensava nesse meu sedentarismo com muito ressentimento. Os amigos, boa parte deles, eles moravam já fora da casa dos pais. E havia aqueles que moravam ainda com a família, mas naqueles lugares “próximos” onde eu me sentia intimidado – “o garotinho lá de Itaquera”. Eu amaldiçoava minha casa e a vizinhança e não sabia se deveria chamá-las de abrigo ou de prisão. E essa irritação indisfarçada angustiava os meus pais – “o que diabos acontece com esse garoto” – enquanto eu, aqui do meu lado, internamente e com a ajuda de alguns rudimentos de psicanálise, eu os ofendia dizendo que “esse complexo edipiano já foi longe demais”.
Quanto a isso, hoje, eu já me sinto um pouco mais pacificado. Um conjunto habitacional aqui, um favelão ali, um enclave vigiado de casas que afetam alguma ostentação (a minha própria casa que parece um “bunker”) – de fato tudo por aqui é seco. Boa parte das pessoas – filhos de lavradores ou eles mesmos lavradores emigrados – perdeu o que era referência de uma vida rural, mas sem que isso implicasse em “urbanidade” (necessidade de encontros, de um espaço público onde a própria vida é posta em avaliação e julgamento). O “modo de vida” aqui – com o seu privatismo selvagem, suas neuroses familiares cultivadas e a paranóia no trato com o outro – isso se fabrica, se sustenta, se compensa, no sonho de se ter um automóvel, na ida ao shopping center e no descanso frente à televisão.
Não sei… Se essa casa, essas pessoas e esse lugar, se isso tudo existe, isso é então legítimo. Se é real, é legítimo. E toda vez que eu subia caminhando da estação do metrô para a minha casa, quando o peito apertava, eu repetia a mim mesmo (como eu ainda faço): “se é real, é também legítimo”. Tão real e tão legítimo quanto o cotidiano dos amigos que moram no Itaim Bibi, Higienópolis ou Perdizes. Tão real e tão legítimo quanto a vida que se leva, sei lá, em Los Angeles, em Argel ou em Bruxelas. E acabei fazendo desse desconforto o meu trabalho: aqui, da minha escrivaninha surrada, num quarto em Itaquera, eu sinto o deserto que não pára de crescer, e eu insulto o deus responsável por isso.
Acho agora que, através de linhas tortas, acabei escrevendo certo. Sinto o meu peito não tão abstrato como ele costumava ser, sinto-o mais concreto, mais consistente. (Essa talvez seja a tal da transformação que os amigos que já passaram dos trinta anos, que alguns deles, tentam me descrever.) Quando penso no “deixar a casa dos pais”, penso nisso sem o ressentimento de antes (“quando eu sair daqui eu jogarei os sapatos pela janela do carro pra não ter de levar sequer a poeira deste lugar comigo”) e sem impaciência. Tentei, e ainda tento, dar um sentido ao sofrimento – e vi que isso era bom. Quem conhece o clima lá do alojamento estudantil da USP, com seu anedotário de humor negro, sabe quanta gente “verde demais” pra uma vida mais “adulta”, quantos meninos e quantas meninas, já perderam o rumo. Vejo hoje que essa possibilidade seria assustadoramente plausível pra mim.

23 de março 2009 – Casa 2

Quando tinha 5 anos mudei de casa pela primeira vez, é uma das poucas lembranças (boas) que tenho da minha infância – o resto perdeu-se ou confunde-se com sonho, ou o contrário. A casa onde morei até os 5 era de aluguel, mas era meu território, tudo ali me pertencia e tinha propriedade em tudo que ali existia, do quintal com Maria-sem-vergonhas onde brincava com os gatos, da escada encarpetada que era minha verdadeira sala de estar, e da “varanda” (a sala se abria para a laje da garagem, cabia a piscina de plástico, sobrando espaço para andar de bicicleta, brincar de casinha e ainda meu pai deitado depois do almoço) que aos meus pequenos olhos era imensa, era de onde me projetava para o mundo, de onde via as crianças mais velhas brincando na rua, onde muitas vezes tentei, a conselho sábio de meu pai, “paralisar” os passarinhos jogando sal na sua cauda… Aquela casa era de aluguel, fomos assaltados uma vez, o bairro não era dos melhores, o momento político e econômico ainda menos – Sarney, inflação, Guerra nas Estrelas, Xuxa – mas foi ali que entendi, vivi um lar. Até pouco antes de me mudar era filha única, minha irmã nasceu e 8 meses depois mudamos, para onde até hoje minha mãe e irmã moram. A casa da rua Duitama, a de aluguel, também era mais minha porque não dividia com mais ninguém.

O apartamento do Arouche, também de aluguel, foi mais meu também porque não dividi. E pensar que em 20 anos algo tão similar estaria para acontecer, quando eu recém mudada brincava entre caixas de papelão, apertando plástico-bolha, descobrindo naquele labirinto um novo território, um espaço sem símbolos estabelecidos, sem memória, sem precedentes. Minha despedida do Arouche foi uma mistura de sentimentos, comparando à Tania de 5 anos, senti-me acuada e curiosa por me mudar, triste e aliviada por sair. Essas são algumas das casas em que vivi. Morar e viver numa casa há diferença de sentido, morei em muitos lugares, mas não vivi em todos. E acho que não importa muito a casa, se como no seu caso for a única, ou como outros, meu avô, por exemplo, que perdem até noção de onde moram, pela constância em que mudam de casa, de cidade, de país, talvez represente um traço da personalidade da pessoa: flexível, inconstante e aberto ou sistemático, estável e consolidado – que também não quer dizer ser vantajoso essa ou aquela característica, se isso de fato se aplica. A grande diferença é se mora ou vive aquela casa ou aquelas casas.

Viver uma casa é algo muito particular de cada pessoa, assim como é particular ter o desprendimento, ou necessidade de mudar ou não (seja de casa ou mudar no sentido amplo da coisa), e não quer dizer que viver seja o que se busca, a casa pode servir de porto seguro, em terra firme, bem como pode ser apenas um abrigo passageiro, sem vínculo e sem história. E se ampliamos a escala dessa casa que digo viver, veremos que a cidade é a progenitora, a grande casa. Vivemos na cidade, alguns moram hospedeiros, mas os que entendem a cidade como casa vivem de fato nela e viver é algo complicado, não basta estar e ser. E de fato, as coisas se legitimam quando as entendemos como real e verdadeiro, e não importa o que escolhemos como verdade. Sendo assim, viver a cidade, a casa, é viver o que escolhemos como casa e cidade, que pode ser qualquer coisa, nós é que atribuímos valores e significados para elas. Então respondendo, sua casa, onde moram também seus pais, é se você assim escolher, se for real e verdadeiro o que sente pela casa, que seja ressentimento, sua vida, porque remete às suas vivências.

Uma grande vantagem, na minha opinião, quando se vive por longos anos no mesmo lugar, com os mesmos móveis, etc, o cotidiano não exige desprendimento de energia, as lembranças ficam registradas em cada parte da casa. Aposto que deve ter um móvel seu que pode contar uma grande história, ou várias. Isso estabelece intimidade com a casa, como bons relacionamentos, sejam quais forem, a energia se concentra na vivência do outro, a tal alteridade, porquê é vivenciar a si mesmo, com uma mútua apropriação do outro em si e mesmo assim descobrir dentro de sua propriedade novos territórios.





(PARÊNTESES)

3 04 2010

É verdade que pretendo manter as postagens relacionadas ao meu trabalho final, mas reli essa crônica do Vinícius. Abri um parênteses para essa leitura.

SEPARAÇÃO

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é a história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de secionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

Vinícius de Moraes





AmorRábico

27 07 2009

Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,
Jaz aos pés do tremendo, estígio nume,
O carrancudo, o rábido Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas.

Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males, de hórridas tristezas.

Pelas terríveis Fúrias instigado,
Lá sai do Inferno, e para mim se avança
O negro monstro, de áspides toucado.

Olhos em brasa de revés me lança;
Oh dor! Oh raiva! Oh morte!… Ei-lo a meu lado
Ferrando as garras na vipérea trança.

Bocage

Ela estava disposta a pôr tudo a perder, prestes a jogar no abismo da desconfiança sua última gota de certeza. Seus olhos gritavam, tinha um aspecto baço e todo azul se escondia na chama cinzenta de seus ciúmes. E bastava saber que ele a desejava, que só de vê-la o sangue esquentava, ao beijá-la já gemia? Não, sabia que qualquer mulher, vulgar que fosse, tinha capacidade para conseguir o gozo, mesmo que efêmero e logo desaparecesse qualquer vestígio de apetite para voltar a comê-la. Que adiantava ter provações de que ele a amava, demonstrando seu afeto que até mesmo desconhecidos não duvidavam de seus sentimentos? A ela nada importava se lhe dava flores, nem mesmo se comovia com a idéia da proposta de casamento, da relação sólida, dos planos de formar família. Ele teria capacidade de amar muitas outras pessoas, simultaneamente.

Não queria possuí-lo única e exclusivamente, não esperava dele mais do que respeito. Sua despretensão era tanta que não sentia apego, ficaria muito feliz se ele encontrasse outra que o completasse mais, com mais afinidades, com menos descompassos. Foi causalidade estarem juntos, nem sequer houve conquista, bastou se conhecerem e decidiram ficar juntos, irem levando. Nada foi oficializado, de repente perceberam que estavam mais de um ano juntos. Convenções. É verdade. Certas convenções preparam o solo, fundamentam ações posteriores. Bobagens! Ah sim, mas paira sempre a dúvida, isto é sério, é para valer, ou somos apenas um caso que deu certo? Não era esse o motivo. Não, não, o ciúme foi inoculado por algo muito mais peçonhento, recalcado e amalgamado, praticamente sem antídoto.

Sua personalidade serena, sua postura intrépida e seu sorriso sem intenções destoavam dos olhos marejados, da garganta entrecortada, do corpo retesado. Continha-se, sabia que esse sentimento era desmedido, e talvez infundado. Cada vez que reprimia seu afeto ou seu ciúme, maior ficava este último, tornava-se cada vez mais hostil, qualquer assunto era tratado impacientemente, com ares de deboche. Quanto mais controlada parecia, mais acometida e intolerante se tornava. Até que extrapolou seus próprios limites e amargou no próprio ciúme. A tolerância estava por um fio.

Sua paciência era descomunal, poderia amá-la mesmo que arrancasse os cabelos pela fúria, aturaria até cenas dramáticas em público com um leve sorriso, achando certa graça. Ele estava mergulhado nela, sentia-se vivo com as palpitações de seu coração descontrolado. É verdade, com alguma perversidade provocava situações, alfinetava aquele corpo, percebia sua pele enrubescer, sua concentração vacilar, seus olhos brilharem de ira e desconforto, sentia um prazer sádico de vê-la tentar se desvencilhar dos próprios sentimentos. Com o passar dos anos, sentiu-se desgraçado, concluiu que perdia o amor e detinha um acúmulo de mágoas, imbuído em descontentamento e decepção, na desrazão do sofrimento e da amargura.

Restava no fim um relacionamento mantido com elos de culpa e laços de conveniências. Não tinham construído nada em que pudessem agarrar e erguer como benefício, que tivessem orgulho. Olhava para ela ressentido de si, via-a como simulacro de suas ambições irrealizadas. Porém, ainda não era tudo só desesperança, debaixo dos escombros que se tornaram sobrevivia uma ternura que arfava. Fantasiava que essa exígua ternura, enfraquecida, arcaica, quase bestial pudesse edificar-se no amor incondicional, na fala doce, no olhar terno, no gesto comovido. Esperava ensinar o coração com o intelecto e esse foi seu maior engano.

Leu Werther, de Goethe, Machado da Assis, Balzac, Álvares de Azevedo, Vinicius de Moraes e tantos outros, queria transformar o tormento em intensidade, motivava-se com as narrativas a ser impulsivo, forçando entusiasmos, mascarando o cansaço e a debilidade. Não indagava a validade de seu esforço, lutava já vencido e ainda que vencesse estava derrotado. Duvidava que pudesse remediar, mas insistia em reagir.

A sua ingenuidade foi crer que podia substituir sua maior deficiência com o ciúme, este crescia dominando sua segurança e sua impavidez. Aquele ímpeto se descontrolou a ponto de não mais se estancar, deixando um rastro revolto. Ele se alastrou, tornou-a dúbia. Passiva de seu sentimento iludia-se com a idéia do relacionamento passional, que tudo devora (não tinha noção que ele também tudo destrói), com o qual a impetuosidade envolveria os dois.

Sua maior dificuldade era de exprimir seus sentimentos, por mais certos que fossem e quanto mais contidos ficavam mais cresciam, maior era o amor por ele. As proporções já não se continham consigo, encontrou nas crises de ciúme seu escape. Na crença de ter assim resolvido sua angústia deu a ele liberdade incondicional de se manifestar, não avaliava se era pertinente, se havia motivo, tudo por acreditar ser seu ciúme sinônimo do seu amor. Afinal, cometeu um erro banal de sintaxe, trocou os códigos.

Ele nunca a repreendeu, as discussões e brigas não tinham o ciúme como causa, pelo contrário, seus disparates eram recebidos por ele com sorrisos, como se desfrutasse de um gozo. Isso se tornou um ciclo vicioso onde um deliciava-se com a evasão do tormento do outro, até perderem-se no próprio turbilhão que engendraram. Ela estava desolada e ele, cego por um prazer perverso, notou seu engano quando tudo já estava arruinado.

Ela suportaria tudo, seu amor a tudo renunciava inclusive ao seu amor próprio. Sua natureza não era autodestrutiva, ela apenas tinha uma força imensa, qualquer dor indicava alguma forma de superação. Sentia-se desamparada, no abandono, onde apenas os monstros que criou faziam-lhe companhia. Ele estava cada vez mais distante. Estava cada vez menos interessado nela e nas suas alternâncias de humor. Não sorria mais, tornou-se menos afável, mais arredio. Tudo o que lhe interessava eram coisas que ela não podia oferecer. Indiretamente ele demonstrava, a cada interesse do seu desvio, o quão inútil eram seus esforços. De nada valia ser uma mulher inteligente, interessante, com a qual se deseja amanhecer todos os dias. A disputa era injusta.

Nem mesmo a maior de suas qualidades estava à altura. Pudesse ser apenas uma mulher comum, ignóbil com um belo par de seios ou uma bunda empinada. Não se importaria. Fosse uma paixão avassaladora, intensa e desestruturante. Sentiria até conforto. Até um homem em seu lugar via com certo alívio, ao menos era algo que não podia oferecer, mas não, aquele homem mantinha-se fielmente ao seu lado e ainda assim não podia ser concorrência mais desleal! Estava em pânico, não restava nenhuma saída, nenhuma medida de urgência, até mesmo suas súplicas eram inválidas.

Onde tudo é vão, o que resta é o nada, e onde de nada tudo vale, na desilusão infundada, num niilismo sem perspectivas, nenhuma ação desesperada tem medida. Sua cólera foi descarregada de uma só vez. Ou era isso ou o abismo. Abriu bruscamente a porta do quarto onde ele mantinha-se trancafiado a horas. Num descontrole histérico explodiu em um sem números de acusações, gritava esganiçado, chorava e cada palavra sofrida era dita entre os dentes cerrados. Ele não entendia uma só sílaba, prostrou a sua frente e deixou ser alvejado pela violência contida que por fim ebuliu. Ela fervia, espumava de ódio, ainda mais porque via que ele mantinha-se sereno, sabia que esperava aquilo tudo acabar e retomar tudo como se nada houvesse!

Foi a gota d’água. Não agüentava mais ouvir de Ursula, Carlota, Capitu, Maria Lúcia, Lucrécia, Ofélia, Catarina, Virgínia, Helena e tantas outras que nem mais sabia dizer seus nomes. Que ela podia frente àquelas deusas, imortalizadas, veneráveis que nem mesmo seus criadores puderam apagar? Como podia ela não se desesperar ao perceber que perdia o homem que amava para aquelas formas perfeitas? Ela era apenas um ser rude, tosco, sem a elegância e solidez que só os anos oferecem. Se o relacionamento acabasse naquele momento, ele a esqueceria em alguns meses. Mas elas, essas nunca! São inesquecíveis, são saborosas, não importa quantas vezes se repita.

E o que ela faria sem ele? Que seria de seu destino, se nem mesmo ele que a amava na sua pior forma, que conseguia ver beleza na sua personalidade bruta, que a desejava e a criou não considerasse tantos anos e tantas histórias, que seria dela afinal? Invejava aquelas outras, que não tiveram um homem fraco, covarde e desistente. Pois elas eram imortais pela perseverança deles, não havia dúvida! Nenhum sofrimento era maior que o tormento de pensar sua vida sem ele. Estaria fadada à inexistência.

Depois de muitos anos, depois da paixão na época da faculdade, dos momentos tempestuosos do início da vida adulta, após a grande frustração de sua vida, resolveu afinal, por fim àquela história toda. Ela á não lhe dizia nada, era vazia, desinteressante. Sentia-se ridículo na roda de amigos, para quê manter tanta lealdade à Loucura, por que ser fiel, deixar passar os melhores anos. Perdeu completamente o sentido, nem amor mais existia, nem ternura, tudo se resumia a desprezo e vergonha. Restou apenas no seu inconsciente a idéia romântica de sua história.





Ständig kurz

19 07 2009

Escher_moebiusband

Schade, es war zu kurz!

seufend voller Glück… und ganz leicht wie Luft!

so glücklich, wenn ich dich seh’

ständig wächst

der Wunsch

die Lust

das Gefühl

die Ruhe

sie ist nicht fade, nein!

entdeckt es jenseits

der Intensität, der Leidenschaft

atmen ohne Bemühung

lächeln gerne

kurz aber docht nicht bald

schön leicht knapp

ständig

Wäre noch dauerhaft!

Versão alemã, de “Breve contínuo” ambos de minha autoria. Ambos dedicados a leveza e tranquilidade dos tempos breves… Agora com trilha sonora!





Constatação [Feststellung]

17 03 2009

Sachliche Romanze

Erich Kästner

Als sie einander acht Jahre kannten
(und man darf sagen: sie kannten sich gut),
kam ihre Liebe plötzlich abhanden.
Wie andern Leuten ein Stock oder Hut.

Sie waren traurig, betrugen sich heiter,
versuchten Küsse, als ob nichts sei,
und sahen sich an und wußten nicht weiter.
Da weinte sie schließlich. Und er stand dabei.

Vom Fenster aus konnte man Schiffen winken.
Er sagte, es wäre schon Viertel nach Vier
und Zeit, irgendwo Kaffee zu trinken.
Nebenan übte ein Mensch Klavier.

Sie gingen ins kleinste Café am Ort
und rührten in ihren Tassen.
Am Abend saßen sie immer noch dort.
Sie saßen allein, und sie sprachen kein Wort
und konnten es einfach nicht fassen.





Começo do fim

8 03 2009

Eu agora sou feliz [jamelão e mestre gato]

Eu agora sou feliz

Eu agora vivo em paz

Me abandona por favor

Porque eu tenho um novo amor

 E eu não lhe quero mais

 Esquece que você já me pertenceu

Que já foi você meu querido amor

Aquela velha amizade nossa já morreu

 E agora quem não quer você sou eu

 Eu agora sou feliz

 

Tudo acabado [heitor dos prazeres]

 Tudo acabado entre nós

Meu amor, francamente

 Quem lhe diz sou eu

O meu coração tudo já esqueceu

 E você para mim morreu

Nem sequer por maldade

A tal saudade ficou em mim

 Hoje eu vivo cantando

E você chorando

O mundo é assim

 

Ouvindo por acaso essas duas músicas na sequência percebi que o fins de relacionamento são dissimulados. Os motivos, se existem são suprimidos por acontecimentos externos: um novo amor, o fim do amor antigo. É como se assumir o fim tal qual, significasse a perda efetiva, mas se o fim é efeito de uma causa externa, as responsabilidades se diluem, dissipam. “Eu agora sou feliz” por exemplo, o esforço todo é de nos convencer que a relação até então não tinha acabado e tudo mudou quando se tem um novo amor. Nas entrelinhas percebe-se que não é bem isso: “me abandone por favor” é um pedido um tanto atípico para alguém novamente apaixonado e que está feliz, no fim, “e agora quem não quer você sou eu” demonstra uma vingança inútil de revidar a rejeição, substituindo o abandono por um novo amor e portanto a relação muito antes já estava perdida. “Tudo acabado” na mesma toada e muito mais evidente mostra a dissimulação: “tudo acabado entre nós meu amor, quem lhe diz sou eu”, a leitura inicial pode dar a entender que deu a volta por cima, resumido em “hoje vivo cantando”. Porém é nesse começo que paira encoberto a negação do fim a tal ponto em que não é mais possível dissimular, e então cinicamente diz, “não, eu é que não quero”.

A dificuldade talvez seja de assumir para si mesmo que acabou, localizar isso no tempo, nas ações fica ainda mais difícil quando se está apaixonado. E como termina um relacionamento? Infelizmente essa natureza não é tão direta na simbologia e em seus significados como a pontuação: “Está tudo acabado!” “Não te amo mais.” O ponto final encontra percalços e obstáculos para manter-se firme. Talvez caiba dizer que fins de relacionamento são processuais, no gerúndio sentimental: “está terminando”, “estou te esquecendo”; até que um dia se constate o fim e ele fica associado a algo externo para quem sabe assim torná-lo estático, podendo definhar no tempo. O artifício do cérebro conta com isso para que as lembranças, presas a uma cronologia, tenha um fim específico: “foi quando conheci Fulano”, “no dia que ela não voltou para casa”. Quem se engana com isso? Bobagens! A verdade é que o fim acompanha o começo, e por vezes algo termina antes mesmo que tenha começado. Como se o começo e o fim, o lobo e o carneiro, fossem indissociáveis. Se o lobo não estiver bem alimentado, vai devorar o carneiro. O início de um relacionamento se extingue quando o fim torna-se enorme.