Um não-lugar chamado Cidade

21 05 2009

O texto que segue se refere ao texto do italiano Giuseppe Dematteis, “A decomposição metropolitana”

Giuseppe Dematteis inicia seu questionamento a cerca da definição de cidade, como citado por Max Weber um assentamento aglomerado circunscrito, para Dematteis esta definição se inicia tardiamente, na alta idade média, quando a necessidade de aglomeração faz-se necessária para o desenvolvimento mercantil burguês, que culminará nas revolução do século XVIII, isto porque a cidade torna-se símbolo e representa a força capital, econômica e política das nações ocidentais desenvolvidas. Interessa para Dematteis porém, os precedentes desta definição e identificação. O autor afirma que há um cruzamento semântico na definição do termo cidade, ao mesmo tempo que se entende como forma física, contém ou abarca fenômenos provenientes do social. A cidade portanto (onde se interpola civitas e urbs – que denominam respectivamente social e físico) está além de uma identificação espacial pois incorpora significados sociais. A origem do fenômeno urbano moderno advém da Idade Média, onde a idéia de centro urbano nada representava, não se reconhecia sob uma identificação geográfica, muito menos encontrava rebatimento físico como um assentamento aglomerado circunscrito, ao contrário, a consciência urbana se encontrava esparsa por um território, presente apenas como propriedade e marcado aqui e ali por construções isoladas, a definição de cidade moderna, na origem, não considera a forma física, pois esta pouco contribuía na sua identificação.

A interpolação semântica, que antes legitimou e fundamentou os centros urbanos e a concentração de bens, pessoas, capital, etc, começa a se desfazer, Dematteis explana o processo de rompimento desta sincronia físico-social. Em linhas gerais, ocorre que o desenvolvimento de produção capitalista não depende mais da cidade enquanto suporte físico como ocorrera até o século XIX – XX, nas últimas décadas do século passado se observa uma mudança de estratégia econômica e produtiva, a produção industrial, antes aglomerada – o que refletia numa identificação física para a sociedade da região ocupada – começa a dissipar-se, se redistribui, inicialmente conformadas e entendidas como expansão, compreendendo as megalópoles, os conurbados urbanos, as regiões metropolitanas, etc. Este salto de escala na organização espacial traz uma primeira defasagem efetiva entre os diversos âmbitos espaciais do urbano.

Outras mudanças tecnológicas, da informática, dos sistemas financeiros, que se sobrepõem à indústria, da mídia e das telecomunicações, desprendem ainda mais a cidade – parte dela, ao menos, representada pelo sistema econômico capitalista e as relações sociais dele proveniente – de sua fundação física propriamente. As relações que se dão são de ordem majoritariamente planetárias, as produções não seguem a lógica da proximidade territorial (isso porque o transporte, de maneira geral, não corresponde mais a um fator restritivo da produção e consumo), sua lógica é virtual e sua estratégia se afasta do conceito de centro e periferia e se organiza por meio de redes e nós. A denominação de rede é melhor entendida se no plural, pois um único nó-cidade está passível de uma infinidade de redes de relações: econômicas, culturais, políticas, sociais, étnicas, etc. Restando apenas fragmentos de sua forma física.

As redes, seguem fluxos de centros mundiais, cada pólo, nó especializado, como os centros financeiros, cuja localização encontra-se esparsa , assim como os centros de produção de bens de consumo, de nichos de mercado consumidor, em suma, o território urbano capitalista é imaterial. Que resta à cidade, qual sua função enquanto vivência e relação urbana? A cidade contemporânea se desintegra na medida em que as relações humanas, sociais e econômicas não se dá concretamente possibilitada pela tecnologia das telecomunicações, do mundo virtual, telemático e mediático. A cidade então é um não-lugar, destituído de conteúdo, vazio de seu sentido, esquizóide no comportamento social, fraco na sua forma e estrutura, se decompõe, pois já morreu.