(PARÊNTESES)

3 04 2010

É verdade que pretendo manter as postagens relacionadas ao meu trabalho final, mas reli essa crônica do Vinícius. Abri um parênteses para essa leitura.

SEPARAÇÃO

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é a história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de secionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

Vinícius de Moraes

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Saudade II

3 08 2009

SAUDADE
Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida.

Clarice Lispector

09410003

Quero me retratar com a saudade, não continuo, preferindo sentir falta a saudades, contudo não há de se negar, nem sonegar, seu devido valor. Quero me retratar com a saudade, deixar que venha, quando for preciso, uma visita de um parente distante. Nos surpreende e embaraça. Ao mesmo tempo que sentimos que faz parte, não temos intimidade, nem temos aquela familiaridade que se perde quando não se convive. Se a saudade quiser, dou-lhe hospedagem.

Como não sou íntima da saudade, não me aprofundo, temos um diálogo superficial, falamos da chuva fora de época dessas semanas, contamos amenidades do cotidiano acompanhadas de breves comentários dispensáveis e depois de poucas horas finda o assunto. Domina o silêncio, olhamos para o nada. A presença causa incômodo, desconserta. E então aquela hóspede carismática, que parecia tão inofensiva, se transforma.

Então entendo porque a saudade não é bem vinda. Quero despachá-la logo, xô, xô, xô! Tem uma exigência inflexível, intolerante. Nada basta, nada basta! Não se pode contentá-la, que dirá satisfazê-la! Não… Cadê aquilo que me pede? Tem vontades extravagantes. E no fundo… O que mais desejo é agradá-la, mesmo que sua vontade seja odiosa, quero me retratar com a saudade.





AmorRábico

27 07 2009

Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,
Jaz aos pés do tremendo, estígio nume,
O carrancudo, o rábido Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas.

Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males, de hórridas tristezas.

Pelas terríveis Fúrias instigado,
Lá sai do Inferno, e para mim se avança
O negro monstro, de áspides toucado.

Olhos em brasa de revés me lança;
Oh dor! Oh raiva! Oh morte!… Ei-lo a meu lado
Ferrando as garras na vipérea trança.

Bocage

Ela estava disposta a pôr tudo a perder, prestes a jogar no abismo da desconfiança sua última gota de certeza. Seus olhos gritavam, tinha um aspecto baço e todo azul se escondia na chama cinzenta de seus ciúmes. E bastava saber que ele a desejava, que só de vê-la o sangue esquentava, ao beijá-la já gemia? Não, sabia que qualquer mulher, vulgar que fosse, tinha capacidade para conseguir o gozo, mesmo que efêmero e logo desaparecesse qualquer vestígio de apetite para voltar a comê-la. Que adiantava ter provações de que ele a amava, demonstrando seu afeto que até mesmo desconhecidos não duvidavam de seus sentimentos? A ela nada importava se lhe dava flores, nem mesmo se comovia com a idéia da proposta de casamento, da relação sólida, dos planos de formar família. Ele teria capacidade de amar muitas outras pessoas, simultaneamente.

Não queria possuí-lo única e exclusivamente, não esperava dele mais do que respeito. Sua despretensão era tanta que não sentia apego, ficaria muito feliz se ele encontrasse outra que o completasse mais, com mais afinidades, com menos descompassos. Foi causalidade estarem juntos, nem sequer houve conquista, bastou se conhecerem e decidiram ficar juntos, irem levando. Nada foi oficializado, de repente perceberam que estavam mais de um ano juntos. Convenções. É verdade. Certas convenções preparam o solo, fundamentam ações posteriores. Bobagens! Ah sim, mas paira sempre a dúvida, isto é sério, é para valer, ou somos apenas um caso que deu certo? Não era esse o motivo. Não, não, o ciúme foi inoculado por algo muito mais peçonhento, recalcado e amalgamado, praticamente sem antídoto.

Sua personalidade serena, sua postura intrépida e seu sorriso sem intenções destoavam dos olhos marejados, da garganta entrecortada, do corpo retesado. Continha-se, sabia que esse sentimento era desmedido, e talvez infundado. Cada vez que reprimia seu afeto ou seu ciúme, maior ficava este último, tornava-se cada vez mais hostil, qualquer assunto era tratado impacientemente, com ares de deboche. Quanto mais controlada parecia, mais acometida e intolerante se tornava. Até que extrapolou seus próprios limites e amargou no próprio ciúme. A tolerância estava por um fio.

Sua paciência era descomunal, poderia amá-la mesmo que arrancasse os cabelos pela fúria, aturaria até cenas dramáticas em público com um leve sorriso, achando certa graça. Ele estava mergulhado nela, sentia-se vivo com as palpitações de seu coração descontrolado. É verdade, com alguma perversidade provocava situações, alfinetava aquele corpo, percebia sua pele enrubescer, sua concentração vacilar, seus olhos brilharem de ira e desconforto, sentia um prazer sádico de vê-la tentar se desvencilhar dos próprios sentimentos. Com o passar dos anos, sentiu-se desgraçado, concluiu que perdia o amor e detinha um acúmulo de mágoas, imbuído em descontentamento e decepção, na desrazão do sofrimento e da amargura.

Restava no fim um relacionamento mantido com elos de culpa e laços de conveniências. Não tinham construído nada em que pudessem agarrar e erguer como benefício, que tivessem orgulho. Olhava para ela ressentido de si, via-a como simulacro de suas ambições irrealizadas. Porém, ainda não era tudo só desesperança, debaixo dos escombros que se tornaram sobrevivia uma ternura que arfava. Fantasiava que essa exígua ternura, enfraquecida, arcaica, quase bestial pudesse edificar-se no amor incondicional, na fala doce, no olhar terno, no gesto comovido. Esperava ensinar o coração com o intelecto e esse foi seu maior engano.

Leu Werther, de Goethe, Machado da Assis, Balzac, Álvares de Azevedo, Vinicius de Moraes e tantos outros, queria transformar o tormento em intensidade, motivava-se com as narrativas a ser impulsivo, forçando entusiasmos, mascarando o cansaço e a debilidade. Não indagava a validade de seu esforço, lutava já vencido e ainda que vencesse estava derrotado. Duvidava que pudesse remediar, mas insistia em reagir.

A sua ingenuidade foi crer que podia substituir sua maior deficiência com o ciúme, este crescia dominando sua segurança e sua impavidez. Aquele ímpeto se descontrolou a ponto de não mais se estancar, deixando um rastro revolto. Ele se alastrou, tornou-a dúbia. Passiva de seu sentimento iludia-se com a idéia do relacionamento passional, que tudo devora (não tinha noção que ele também tudo destrói), com o qual a impetuosidade envolveria os dois.

Sua maior dificuldade era de exprimir seus sentimentos, por mais certos que fossem e quanto mais contidos ficavam mais cresciam, maior era o amor por ele. As proporções já não se continham consigo, encontrou nas crises de ciúme seu escape. Na crença de ter assim resolvido sua angústia deu a ele liberdade incondicional de se manifestar, não avaliava se era pertinente, se havia motivo, tudo por acreditar ser seu ciúme sinônimo do seu amor. Afinal, cometeu um erro banal de sintaxe, trocou os códigos.

Ele nunca a repreendeu, as discussões e brigas não tinham o ciúme como causa, pelo contrário, seus disparates eram recebidos por ele com sorrisos, como se desfrutasse de um gozo. Isso se tornou um ciclo vicioso onde um deliciava-se com a evasão do tormento do outro, até perderem-se no próprio turbilhão que engendraram. Ela estava desolada e ele, cego por um prazer perverso, notou seu engano quando tudo já estava arruinado.

Ela suportaria tudo, seu amor a tudo renunciava inclusive ao seu amor próprio. Sua natureza não era autodestrutiva, ela apenas tinha uma força imensa, qualquer dor indicava alguma forma de superação. Sentia-se desamparada, no abandono, onde apenas os monstros que criou faziam-lhe companhia. Ele estava cada vez mais distante. Estava cada vez menos interessado nela e nas suas alternâncias de humor. Não sorria mais, tornou-se menos afável, mais arredio. Tudo o que lhe interessava eram coisas que ela não podia oferecer. Indiretamente ele demonstrava, a cada interesse do seu desvio, o quão inútil eram seus esforços. De nada valia ser uma mulher inteligente, interessante, com a qual se deseja amanhecer todos os dias. A disputa era injusta.

Nem mesmo a maior de suas qualidades estava à altura. Pudesse ser apenas uma mulher comum, ignóbil com um belo par de seios ou uma bunda empinada. Não se importaria. Fosse uma paixão avassaladora, intensa e desestruturante. Sentiria até conforto. Até um homem em seu lugar via com certo alívio, ao menos era algo que não podia oferecer, mas não, aquele homem mantinha-se fielmente ao seu lado e ainda assim não podia ser concorrência mais desleal! Estava em pânico, não restava nenhuma saída, nenhuma medida de urgência, até mesmo suas súplicas eram inválidas.

Onde tudo é vão, o que resta é o nada, e onde de nada tudo vale, na desilusão infundada, num niilismo sem perspectivas, nenhuma ação desesperada tem medida. Sua cólera foi descarregada de uma só vez. Ou era isso ou o abismo. Abriu bruscamente a porta do quarto onde ele mantinha-se trancafiado a horas. Num descontrole histérico explodiu em um sem números de acusações, gritava esganiçado, chorava e cada palavra sofrida era dita entre os dentes cerrados. Ele não entendia uma só sílaba, prostrou a sua frente e deixou ser alvejado pela violência contida que por fim ebuliu. Ela fervia, espumava de ódio, ainda mais porque via que ele mantinha-se sereno, sabia que esperava aquilo tudo acabar e retomar tudo como se nada houvesse!

Foi a gota d’água. Não agüentava mais ouvir de Ursula, Carlota, Capitu, Maria Lúcia, Lucrécia, Ofélia, Catarina, Virgínia, Helena e tantas outras que nem mais sabia dizer seus nomes. Que ela podia frente àquelas deusas, imortalizadas, veneráveis que nem mesmo seus criadores puderam apagar? Como podia ela não se desesperar ao perceber que perdia o homem que amava para aquelas formas perfeitas? Ela era apenas um ser rude, tosco, sem a elegância e solidez que só os anos oferecem. Se o relacionamento acabasse naquele momento, ele a esqueceria em alguns meses. Mas elas, essas nunca! São inesquecíveis, são saborosas, não importa quantas vezes se repita.

E o que ela faria sem ele? Que seria de seu destino, se nem mesmo ele que a amava na sua pior forma, que conseguia ver beleza na sua personalidade bruta, que a desejava e a criou não considerasse tantos anos e tantas histórias, que seria dela afinal? Invejava aquelas outras, que não tiveram um homem fraco, covarde e desistente. Pois elas eram imortais pela perseverança deles, não havia dúvida! Nenhum sofrimento era maior que o tormento de pensar sua vida sem ele. Estaria fadada à inexistência.

Depois de muitos anos, depois da paixão na época da faculdade, dos momentos tempestuosos do início da vida adulta, após a grande frustração de sua vida, resolveu afinal, por fim àquela história toda. Ela á não lhe dizia nada, era vazia, desinteressante. Sentia-se ridículo na roda de amigos, para quê manter tanta lealdade à Loucura, por que ser fiel, deixar passar os melhores anos. Perdeu completamente o sentido, nem amor mais existia, nem ternura, tudo se resumia a desprezo e vergonha. Restou apenas no seu inconsciente a idéia romântica de sua história.





Para quê tudo isso?

3 07 2009

Que tenho eu vontade?

Que pode operar sobre mim senão meus anseios?

Que desejo eu que não deseja senão você?!

Que desejamos nós que não fosse ter, ser e dar?

Para que tudo isso?

Para arfirmar que sou

Para impor minha vontade

sobretudo, sobre mim mesmo

Para refletir meu desejo

de ser inexorável

de ter individualidade

de dar sentido

Com que razão?

Que importa meus motivos?

O que garante que meus fundamentos sejam infundáveis?

O que importa mesmo é o que EU desejo.

Não importa o que

nem como.

É vazio. Sem conteúdo, é apenas continente.

Continente do que sou na vastidão do ser que nada tem e tudo quer.

Vontade é minha razão de ser.

E só por isso persisto existir.





(CON)TEXTOS

15 03 2009

Lendo um texto sobre o pós-modernismo de David Harvey “Condição pós-moderna” me deparei com este trecho:

“Escritores que criam textos ou usam palavras o fazem com base em todos os outros textos e palavras com que depararam, e os leitores lidam com eles do mesmo jeito. A vida cultural é, pois, vista como uma série de textos em intersecção com outros textos, produzindo mais textos (incluindo o do crítico literário, que visa produzir outra obra literária em que textos sob consideração entram em intersecção livre com outros textos que possam ter afetado o seu pensamento).

Esse entrelaçamento intertextual tem vida própria; o que quer dizer que escrevamos transmite sentidos que não estavam ou possivelmente não podiam estar na nossa intenção, e as nossas palavras não podem transmitir o que queremos dizer. É vão tentar dominar um texto, porque o perpétuo entretecer de textos e sentidos está fora do nosso controle; a linguagem opera através de nós.”

Isso me fez lembrar de outro autor, Montaigne que escreveu: “ce ne sont pas mes gestes que j’escris, c’est moi, c’est mon essence.”

Confesso que fiquei impressionada com estas afirmações, parecem ser óbvias, mas invalidam qualquer esforço de se expressar. Harvey falava sobre o conceito dos “desconstrucionistas”, um movimento literário-filosófico surgido entre as décadas de 60 e 70. Montaigne dizia de si mesmo. Mas estou convencida de que isso faz todo o sentido, as interpretações do que escrevemos é tão volúvel quanto nossa essence, nossas opiniões, quanto nossas verdades.

Comigo é comum perder o controle do que escrevo, me torno um veículo de outra coisa, como se as palavras nem me pertencessem, ouso dizer que eu é que pertenço às palavras, são elas que me dão vida, e elas mesmas de mim transcendem de sentido e significado. E o que dizer das entrelinhas, então? Como alguém poderia entender o que quis dizer com o que escrevi, se não vem acompanhado dos pensamentos que deram origem ao texto, em verdade, às vezes nem eu sei de onde eles vêem… O que é pior, quem lê interpreta conforme os pensamentos que surgem do texto lido ao revés e em retrocesso, a interpretação tem intenções próprias e estão sujeitas a erro ou acerto, e seja qual for o resultado, não será o originalmente intencionado.

O que escrevemos se liga não só aos outros textos e palavras que lemos e ouvimos, mas também às livres interpretações que estes suscitam, aos sentimentos que temos em relação ao que vivemos e aos traumas que nos deixam. As palavras agregam conotações particulares, seja escrita ou falada, para os que lêem ou ouvem. Ser literal é tão ingênuo quanto ser impessoal, dissociar o que se lê das próprias experiências sejam vividas ou lidas é impraticável. Isso me apavora. Que será que já interpretaram das coisas que escrevi? Quais pensamentos despertaram com isso, provocou riso, desprezo, foi descabido, exagerado?

Dizem que devemos pensar muito bem antes de dizer alguma coisa, isso também vale para o que escrevemos. Com a distância do tempo, porém, tudo perde a importância. As revisões, correções vão sempre existir, afinal, se a linguagem opera através de nós, se o texto tem vida própria, se os pensamentos são volúveis e dinâmicos o efeito disso é a efemeridade.