Para quê tudo isso?

3 07 2009

Que tenho eu vontade?

Que pode operar sobre mim senão meus anseios?

Que desejo eu que não deseja senão você?!

Que desejamos nós que não fosse ter, ser e dar?

Para que tudo isso?

Para arfirmar que sou

Para impor minha vontade

sobretudo, sobre mim mesmo

Para refletir meu desejo

de ser inexorável

de ter individualidade

de dar sentido

Com que razão?

Que importa meus motivos?

O que garante que meus fundamentos sejam infundáveis?

O que importa mesmo é o que EU desejo.

Não importa o que

nem como.

É vazio. Sem conteúdo, é apenas continente.

Continente do que sou na vastidão do ser que nada tem e tudo quer.

Vontade é minha razão de ser.

E só por isso persisto existir.





1º de abril, 1ª verdade

1 04 2009

SAMBA DO GRANDE AMOR (Chico Buarque)

Tinha cá pra mim

Que agora sim

Eu vivia enfim o grande amor

Mentira

Me atirei assim

De trampolim

Fui até o fim um amador

Passava um verão

A água e pão

Dava o meu quinhão pro grande amor

Mentira

Eu botava a mão

No fogo então

Com meu coração de fiador

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito

Exijo respeito, não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor

Mentira

Fui muito fiel

Comprei anel

Botei no papel o grande amor

Mentira

Reservei hotel

Sarapatel

E lua-de-mel em Salvador

Fui rezar na Sé

Pra São José

Que eu levava fé no grande amor

Mentira

Fiz promessa até

Pra Oxumaré

De subir a pé o Redentor

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito

Exijo respeito, não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor

Mentira

A grande mentira é não ser verdadeiro consigo mesmo, mentir para si é turvar a verdade. Mas enfim, o que é afinal verdadeiro, para quem, o quê? Vou ser genérica e usar o jargão genérico que tudo na vida é relativo, antes disso, antecede a relatividade a verdade, e esta é tão subjetiva e imaterial quanto a idéia de tudo ser relativo… O homem é um construtor, são castelinhos infantis tão frágeis quanto belos. A construção da verdade é mais um desses castelinhos, construído e reconstruído várias vezes por cima do existente, usando as mesmas peças para outro fim, com uma função que talvez  originalmente não foi pensada. Então, se é construção contínua e por isso dinâmica e variável, como ter certeza do que é verdade ou não?

A verdade antes de tudo é subjetiva, e se uma coisa é verdade para o sujeito, se ela é percebida verdadeiramente, ela existe e é verdade. Vão logo me questionar que assim qualquer mentira ganha os louros sem qualquer risco de descoberta de fraude, se baseando na premissa que foi verdade para algum sujeito. Mas todas as verdades são originárias de uma única matriz, um fundamento sólido, um elemento que compõe todos os outros nessa construção. A primeira verdade-modelo é a verdade relativa à própria existência do sujeito enquanto pensamento.

Existir é verdadeiro, o que se pensa nesta existência ainda que subjetiva traz à realidade existências verdadeiras. E as verdades antagônicas coexistem tanto no sujeito quanto na realidade. A mentira surge não da verdade pura, mas de um ideal subjetivo irreal, incompatível com a existência, que quase poderia se dizer como uma verdade anacrônica. Mentir é encobrir o descompasso temporal do sujeito e sua verdadeira existência.

E o que o grande amor tem com todo esse papo pseudo-filosófico? O grande amor só pode ser vedadeiro, se percebido a tempo, na realidade do sujeito que o vive, que percebe sua existência. Então, se você tem um grande amor, não mude de calçada, não endureça o coração, não vacine-se contra o verdadeiro amor. Isso sim é uma grande mentira.