2010 – Mais um arquiteto formado

7 03 2010

Quatro anos concluídos, o quinto e último se inicia. A graduação caminha para o fim, o início da vida profissionalmente reconhecida: me formo arquiteto.

Lina Bo Bard, italiana que migrou para o Brasil em 1946, autora do projeto do MASP, SESC Pompéia, entre outras grandes obras no nordeste além de deixar como herança intelectual, muitos artigos, a maioria políticos o que lhe rendeu alguns anos de exílio na ditadura, costumava se designar architetto, assim mesmo, sem concordar o gênero feminino. Feminista genuína, mulher de temperamento forte, projetou em grande parte no canteiro de obras, dirigindo os empreiteiros dos anos 60 – 80 melhor que muito homem. Conheci a obra e a proposta sociopolítica de Bardi no primeiro ano da faculdade e desde então tenho como modelo profissional este architetto.

O contexto de Bardi não é o contexto atual, suas propostas estavam relacionadas com uma iminência industrial pouco desenvolvida, num país ainda com o mote: “o petróleo é nosso” da era Varguista e com olhos esperançosos no desenvolvimentismo iniciado. Os anos dourados, da bossa nova, da arquitetura brasileira internacionalmente reconhecida, com o olhar otimista da Europa pós-Guerra em reconstrução sobre os países terceiro mundistas. Foi neste contexto que Lina, formada em Roma – que propôs em seu trabalho final uma Maternidade para Mulheres Solteiras – comunista ativa na resistência contra o levante fascista e casada com Pietro Maria Bardi, chegou ao Brasil com olhar estrangeiro vinda de uma Europa desfacelada social, político e moralmente, e destruída pela guerra.

Pensando nisto, eu, mulher de quase 30, brasileira, que conheceu uma Europa do Euro e União Européia, com muito mais aversão a migrantes e menos deslumbrados com culturas exóticas, mais condicionados ao esteriótipo de brasileira internacionalmente difundida que entregue à curiosidade que Lina experimentou e estimulou no século passado, amedrontados com terroristas, radicais religiosos de toda sorte, gripes aviárias e suínas, vírus cibernéticos e reais, mídia de massa dominando mais do que potências nacionais (que se dissolvem mais e mais) e economia capitalista embotando os sentidos, individualiazando cada vez mais esse homem moderno, cosmopolita e global. Não sei mais que outros contextos cabem aqui, de certo muito outros. Mas não importa, o que fica claro é que eu não posso usar profissionalmente Lina Bardi de modelo, ao menos não de forma mimética, despreocupada e pretenciosa. Não, não posso desvalorizar o empenho daqueles românticos que sonharam mudar o mundo e a sociedade com seus projetos. Se não, então que posso fazer em contrapartida?

Tenho esse ano para responder, de início e parcialmente, a questão que me coloco e pretendo usar este espaço como diário de bordo da construção do meu TFG – Trabalho Final de Graduação – já que só tenho pensado nisso, chegando até a sonhar. Mas fiquem despreocupados, possíveis leitores, o tema se estende para além de Lina e conjunturas sócio-políticas-culturais (o que já é extenso), se o que escrevo tem intresse mínimo, provavelmente os próximos meses não serão cansativos para quem acompanhar o blog.

Avante architetto!

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Ständig kurz

19 07 2009

Escher_moebiusband

Schade, es war zu kurz!

seufend voller Glück… und ganz leicht wie Luft!

so glücklich, wenn ich dich seh’

ständig wächst

der Wunsch

die Lust

das Gefühl

die Ruhe

sie ist nicht fade, nein!

entdeckt es jenseits

der Intensität, der Leidenschaft

atmen ohne Bemühung

lächeln gerne

kurz aber docht nicht bald

schön leicht knapp

ständig

Wäre noch dauerhaft!

Versão alemã, de “Breve contínuo” ambos de minha autoria. Ambos dedicados a leveza e tranquilidade dos tempos breves… Agora com trilha sonora!





Para quê tudo isso?

3 07 2009

Que tenho eu vontade?

Que pode operar sobre mim senão meus anseios?

Que desejo eu que não deseja senão você?!

Que desejamos nós que não fosse ter, ser e dar?

Para que tudo isso?

Para arfirmar que sou

Para impor minha vontade

sobretudo, sobre mim mesmo

Para refletir meu desejo

de ser inexorável

de ter individualidade

de dar sentido

Com que razão?

Que importa meus motivos?

O que garante que meus fundamentos sejam infundáveis?

O que importa mesmo é o que EU desejo.

Não importa o que

nem como.

É vazio. Sem conteúdo, é apenas continente.

Continente do que sou na vastidão do ser que nada tem e tudo quer.

Vontade é minha razão de ser.

E só por isso persisto existir.





ME LIQUEFAZER

23 03 2009

vapor_cinza

 

Apago todas as luzes e me fecho na varanda. É o princípio da noite cálida, pouco antes da chuva. Uma mulher com guarda-chuva verde, calças pretas e sandálias brancas atravessa a rua apressada. Sento-me na cadeira, me envergonho pela decisão e acho graça ver a mulher voltar com o guarda-chuva fechado e atravessar mais vagarosa, agora que a chuva já cai cadenciada. O movimento na rua é grande, a maioria das pessoas, como a mulher de sandálias brancas, segue na chuva sem grande desespero, sem protejer-se, como se aquela chuva não fosse real. A noite lembra o clima de praia, com a típica chuva que borrifa frescor, mas não molha.

Nunca duvidei do poder de sociabilização da cerveja, do café e do cigarro, como também nunca senti falta usar desses artifícios para tornar-me mais sociável. Para provar isto, acendo meu primeiro cigarro solitária, no anonimato urbano. No primeiro trago já sinto uma ponta de arrependimento, mas é na outra ponta deste pequeno cilindro que toda a minha ansiedade se consome. A noite envolve a brasa, esta fonte de luz rarefeita onde deposito minhas esperanças.

De forma instantânea, os músculos relaxam gradualmente, um a um, com um leve formigamento. O relaxamento é tanto, que tudo se esvai na noite morna e na chuva fresca, como que evaporado antes de chegar ao chão, tenho uma leve tontura e sinto minha cabeça pendendo pesada com o cérebro liquefeito. Aos poucos fico entorpecida, o organismo denuncia a intoxicação da nicotina, ao mesmo tempo que está ávido por ver a brasa reluzir, se extinguindo a cada próximo trago. Vem súbito o desejo por mais um, antes que o primeiro se acabe, num arremedo compulsório, emendando desejos e frustrações, vícios e medos, dissoluções e impulsos.

Embora o organismo e a psíque execrem a necessidade de fumar, o cigarro estabelece íntima relação com o meu eu tão só aliviado por sua existência e companhia efêmera e perecível. O hábito vem quase sem querer, e constato já ter fumado sem perceber mais de meio maço! Estou imbuída de sensações contraditórias, de sentimentos complementares e antitéticos, como acredito estrarmos sempre, personificados na mulher que vi ir e vir de sandálias brancas. Esse conjunto incoerente é velado pelo cigarro e está depositado em cada bituca que despejo no cinzeiro.

Percebo os efeitos colaterais, não nasci para ser fumante, há um embate fisiológico entre a repulsa pelo cigarro e um desejo, uma atração pelo momento de estar apenas comigo. O cigarro é o veículo que possibilita a pausa, um instante de ócio no meio do turbilhão, em que o entrar e sair da fumaça produz maior contato entre o corpo e a existência etérea.

A respiração é orquestrada pelo pulsar da brasa que a cada novo trago se aproxima, aquece e reconforta, e isto indica também sua extinção. A inspiração é um espasmo, um momento sincopado pela fumaça e todos os males, de dentro do cigarro e do interior da mente e da alma adentrando no meu corpo, enquanto a expiração é o alívio, o momento de desabafo pela baforada que dilui a tensão e externaliza a angústia

O calor aproxima-se dos dedos, numa carícia provocante e perigosa. Com uma gana infantil termino em poucos minutos, o que poderia levar uma eternidade. A luz amarela da rua tinge a água da garoa de dourado, estou toda do avesso e para fora. O amargor da garganta adocica a boca ressequida, uma sensação torpe e idiota me invade e sinto que me liquefiz em cinzas.





Folia em cinzas

26 02 2009

O carnaval para muitos, para a grande e avassaladora maioria, é sinônimo de folia, são três dias em que se permite transvestir, transgredir, ser o outro ou a si mesmo na essência. A festa é uma comemoração da vida mundana, carnal. Se bebe, se fuma, dança e pula. É um entusiasmo que vem do estômago, um êxtase do espírito humano naquilo que ele tem de mais humano: o desejo. É pelo desejo de viver o outro, desejo de explodir, de gritar, de gargalhar que o homem realiza, cria, reconstrói, é antes de tudo um desígnio.

Neste carnaval optei por não participar da folia coletiva, queria muito mais ser espectadora, observar anonimamente o movimento geral e as particularidades, mas não teve jeito, sou humana também afinal, o carnaval me invadiu e foi arrebatador. Começou com a vinda do porta-estandarde em azul e preto e da dama do paço com sua calunga de vestido e fitas coloridas, atrás seguidos do rei e da rainha entoando uma marcha amarela e azul, acompanhados pela baiana velha toda de branco e saia rodada, as baianas em botão, floridas das mais diversas cores e eu encarnei a baianada de vermelho e preto. Também tinham noivas acompanhadas por suas alfaias, seus xererês e seus maracás dando ritmo à multidão, seguindo o cortejo pelas ruas em meio ao calor da noite e dos corpos dançantes.

O carnaval é uma ode aos sentidos, que é o que há de mais humano, o homem se diferencia por isso dos outros animais, pois tem a capacidade de intepretar em emoções e valores os estímulos dos sentidos, ele não é só instinto. A música embala, os batuques, a melodia e o ritmo encontram ressonância nos corpos, nos membros, nas batidas do coração, no inspirar e expirar dos pulmões. As cores das fantasias e da pele suada dão o tom e também bombardeiam os olhos, que transtornados tateiam as formas delineadas de uma grande massa em movimento. O colorido das luzes cega e dirige o olhar, os cheiros embotam o espírito e a folia vai noite adentro, dentro de cada copo, cada corpo e seus desejos.

O tato dos corpos eufóricos entrelaçados, enroscados e imbuídos no som e suor, sedentos e famintos, também é parte e todo da folia carnavalesca, mas por fim chega a quarta feira e tudo é obrigado a voltar à normalidade, o corpo cansado e extenuado suspira um última vez e os olhos ainda mal-acostumados procuram ver as cores que restam entre as cinzas.