Saudade II

3 08 2009

SAUDADE
Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida.

Clarice Lispector

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Quero me retratar com a saudade, não continuo, preferindo sentir falta a saudades, contudo não há de se negar, nem sonegar, seu devido valor. Quero me retratar com a saudade, deixar que venha, quando for preciso, uma visita de um parente distante. Nos surpreende e embaraça. Ao mesmo tempo que sentimos que faz parte, não temos intimidade, nem temos aquela familiaridade que se perde quando não se convive. Se a saudade quiser, dou-lhe hospedagem.

Como não sou íntima da saudade, não me aprofundo, temos um diálogo superficial, falamos da chuva fora de época dessas semanas, contamos amenidades do cotidiano acompanhadas de breves comentários dispensáveis e depois de poucas horas finda o assunto. Domina o silêncio, olhamos para o nada. A presença causa incômodo, desconserta. E então aquela hóspede carismática, que parecia tão inofensiva, se transforma.

Então entendo porque a saudade não é bem vinda. Quero despachá-la logo, xô, xô, xô! Tem uma exigência inflexível, intolerante. Nada basta, nada basta! Não se pode contentá-la, que dirá satisfazê-la! Não… Cadê aquilo que me pede? Tem vontades extravagantes. E no fundo… O que mais desejo é agradá-la, mesmo que sua vontade seja odiosa, quero me retratar com a saudade.

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SAUDADE – I

21 07 2009

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Natureza Morta

Prefiro, sempre dizer aos que amo que sinto falta, ao invés de dizer saudades. Saudade me pesa, me é indigesta. Disse minha vó, num gesto espontâneo associativo, que saudade é solidão. Sente saudade, por se sentir só, porque só o que passou preenche o vazio do agora. É fazer da lembrança alimento do porvir.

Aceitei o convite do futuro, tratei das feridas passadas e presentes e isto não foi um alívio, não diluiu o bloco denso, é que velar não significa esquecer, enterrar não implica em apagar.

Verdade seja dita, não sinto saudades, que entendo ser uma nostalgia, com melancolia e descrença. O que sinto é motivação, esperança! Não, não pode ser saudades. É um sentir falta, saber que passou, manter na memória a sensação, a vivência.

Não desejo saudade, nem mesmo as lembranças que ela contém, ficou um gosto de doce, que só a vó fazia. O doce só tem gosto especial pela memória construída, se comer de novo, perde a graça. Sigo sentindo falta do doce presente, recupero logo o apetite.





Chá das cinco

16 03 2009

“Nero come la notte

Forte come un peccato

Dolce come l’amore

Caldo come l’inferno”

Café Suplici





Período de Experiência

7 03 2009

Fazem três meses que a vontade de manter um blog funcionou, pela primeira vez, após inúmeras tentativas. Esse período de experiência, com certa inconstância nas postagens e certo anonimato, consolidaram o blog como necessidade.

Nesses três meses experimentei muito mais do que um compromisso comigo mesma de manter atualizado os pensamentos que passam por linhas tão diferentes, múltiplas, dissonantes, complementares. Por isso tem dado certo escrever, porque muita coisa aconteceu ou passou por essa cabeça um tanto confusa e em ebulição. As linhas que se entrecruzam, recriam caminhos ou criam uma malha que no fundo tem uma continuidade, uma lógica, ainda que não aparente.

A proposta de escrever “pensamentos” foi muito feliz, não tem contratação efetiva, nem temporária, é um projeto para longo prazo, afinal, pretendo continuar pensando por um bom tempo. Passado o tempo experimental, com mais certeza e segurança do que quero expor aqui, o blog toma forma e aproveito para divulgar as novidades: Mensalmente acompanharemos Maria Eugênia, uma mulher que incorpora as experiências e os pensamentos correntes dessa vida contemporânea. A página “Retratos” terá também todo mês uma figura nova apresentada. Além disso, um Conto-mudo seguirá sua narrativa por um período indeterminado. Aos desavisados, como aspirante à arquiteta e urbanista, me esforçarei para incluir mais textos sobre impressões da cidade, críticas ou enfim, assuntos correlatos ao tema.

É isso.





MEGALOWOMAN

14 01 2009


Imprevisível…
Não sou esquizofrênica, acho, porém tenho muitas personalidades, das mais variadas, da introspectiva à despirocada, ao avesso, do impassível ao suscetível, me adequando ao meio, feito camaleão…
Eu tenho, como qualquer um, problemas, e são neles que eu desenvolvo meus defeitos, dentre eles a sinceridade elevada à perversidade… Sou quietinha, até me atiçarem, e se me empolgo, me desconstruo, me revisito, desdobrada tantas vezes que fico irreconhecível. Por vezes faço o tipo menina, muitas vezes moleca e de raro em raro mulherão…
Ninguém se conhece de verdade e nem se mostra por completo a si mesmo, eu brinco de esconde-esconde comigo e se não me perder de vez, encontro outras de mim, me redescubro, me reinvento.
Sou medrosa, mas não deixo isso me paralisar (até agora), estou aberta para ouvir e ser ouvida, me esforço para não prejulgar nada e prezo pelo mesmo. Chego até a ter uma certa ingenuidade, sou crédula na benevolência dos homens, mas a malícia também existe, aí fico no dilema: correr o risco ou não? Hoje digo sim! Sempre digo sim. Corra todos os riscos, todos aqueles que valham a pena, e eles sempre valem, em algum momento valerá ou valeu, sei lá… É outro defeito: sou insegura, muito, e quem não é? Me ponho sempre em dúvida, duvido sempre de mim, vai saber? Com tantas de mim, nunca se sabe com qual delas se está lidando…
Eu tenho caráter e convicções, se quer me ferir seja injusto, incrédulo, cético e desrespeite aquilo que acredito e verá como posso ser amarga. E mesmo assim, eu sei perdoar, relevar e aprender com as mágoas.Eu gosto do silêncio, desde que este não venha acompanhado com a solidão. E solidão não é a mesma coisa que estar sozinho, sozinhos (com nós mesmos) nós sempre estamos.
Eu tenho fome de conhecimento e sede de prazeres, quero me embebedar muito! Acho que sou isso ou nada disso e tudo ao revés, sou a mãe do filho que me pariu! Sou metafórica ainda que não acreditem… Dizem as más línguas que sou viciante, paralisante, desconsertante, mas eu não acredito!





DERIVA COM EMBASAMENTOS

7 01 2009

O texto que segue é uma resenha da palestra que assiti do físico Luis Alberto Oliveira, sua tese é na verdade sobre a civilização à deriva como um todo. Particularizei o global, tirei parte do todo e claro, o sentido já não é mais o mesmo. Afinal, estou à deriva.

CIVILIZAÇÃO EM MUTAÇÃO

O palestrante discorreu sobre o momento mundial que estamos vivendo, o que ele representa e de onde provém esta situação “atípica consolidada” e para onde se encaminha a civilização. Luis Alberto Oliveira afirma, e eu temo em concordar, que o momento atual constitui uma crise consolidada, quase como uma revolução instituída. É como se dissesse: “eu luto, mas não sei quem é o inimigo, muito menos os ideais que defendo”. A massificação deixou diluídos os conceitos polarizados e polêmicos: se antes se tinha ou capitalismo ou comunismo, hoje temos coligações de partidos sem convergências ideológicas, muito menos afinidades partidárias; se antes tínhamos ou mundo desenvolvido ou subdesenvolvido, hoje temos a globalização, os países emergentes, miseráveis, sem saúde e educação, infra-estrutura sanitária, mas que tem poder de mercado para ter seu ipod, e ir no mínimo à lanhouse mais próxima…

No decorrer da palestra, Oliveira explana como essa crise, deslocada de sua essência – a crise é um fato raro para melhorar ou piorar algo, ou seja seu conceito é semelhante à criação – por sua constância engendra, somado ao desvio, uma mutação, uma mudança de era civilizacional, é um momento de transição. Tal mutação relaciona-se como o acaso, visto que é imprevisível pois gerado da crise instituída. Por sua vez o acaso, explicou Oliveira, fora classificado por Aristóteles, para compreender o mundo e seus fenômenos, em ignorância (se desconhece sua causa), coincidência (encontro de casualidades) e puro ou desvio (arranjos de unidades indivisíveis – átomo- mais vazio, que se chocam aleatoriamente). Pensando nesta última classe de acasos, a errância inerente das partículas instaura um mundo que se renova permanentemente a partir do desvio, portanto é imprevisível e aleatório, não tem começo, nem meio ou fim.

Esta errância aleatória renovando e mudando constantemente as relações estabelecidas está diretamente ligada à dobra ou à “deslinearidade”, ambos conceitos largamente abordados pelo palestrante. A matemática tradicional era entendida linearmente, ou seja, “o todo é a soma das partes”, isso significa que não há nada no todo que já não estivesse contido nas partes, mas como se explica quando isso não ocorre, quando uma mutação ocorre e o que se tem no todo não é em absoluto relativo às partes? Aí nos é apresentado a matemática deslinear, onde o todo não é a somatória das partes, mas produto de seus vários desdobramentos, suas errâncias. “ O comportamento sob certas regras, ao agir modifica as próprias regras e altera o próprio agente.” Como exemplo Oliveira citou a história dos lobos e coelhos, onde os coelhos são um meio para os lobos agirem sobre eles mesmos. A dobra, que pode ser entendida pelos sufixos sinônimos plica ( do Lat. ant., sinal na música, indicativo de ornamento melódico; prega; dobra; plicatura. e plexo (do Lat. fig., encadeamento; entrelaçamento).Exemplos: com-plica, im-plica, du-plica, com-plexo, etc. Os desdobramentos são como a deslinearidade, mas podem desdobrar sob eles mesmos. Os sistemas COM-PLEXOS são capazes de se indeterminarem, pois se desdobrou sem previsão de voltar à origem (à parte, à parte alguma do todo), transformando-se em processo serial.

Sobre o processo serial o palestrante deu um exemplo do efeito borboleta, que pequenas causas em série, numa equação: repetição, reiteração, acumulação e amplificação resulta num efeito muito maior do que linearmente, ou seja, torna-se-á imprevisível.

O momento atual que vivemos é, seguindo estes conceitos, um momento de transição da civilização, e mais, afirma Oliveira, o dobramento da civilização humana é através da tecnociência. Pensando os possíveis destinos da civilização, que são de fato imprevisíveis (e nunca deixou de ser – nisso eu discordo do palestrante), se o acaso e o imprevisível são regra, se estabelece o caos. O caos é a possibilidade, é a confusão de todos os elementos do mundo antes de formar um mundo outro, é então a origem desordenada que poderá reconfigurar e mudar a civilização, ser outra coisa para continuar existindo. Podendo assim propagar a espécie, ou não. Nosso papel é como meio, não como fim – somos então os coelhos, não os lobos…





SOBRE A DERIVA

7 01 2009

Eu tenho uma tese a respeito da deriva. Não tem embasamento teórico, científico ou acadêmico. Foram impressões deixadas nesse ano que passou, e nada melhor do que começar o novo ano falando do velho. O ser humano é retrógrado.

2008 foi o ano da deriva, para muitos, não me iludo com idéias exclusivistas. A minha deriva me levou para onde eu sempre quis ir. E não é porque quis, que elas chegaram até mim, é o acaso. Ele é muito mais do que simples acaso, o conceito não é raso nem vazio como se imagina. Mas disse que não tinha embasamento teórico, pois é, menti. Para não assustar, fato. Quem iria ler? O acaso é estudado desde os grecos… iiii olha a ladainha.

Voltemos ao passado recente, 2008. Minha tese sobre a deriva, sem embasamentos. Ela ocorre tão logo aconteça uma mudança de estado, saiu da inércia, entrou na deriva, companheiro. Uma vez na deriva, esta te leva através dos acasos para onde pretendia ir ou chegar. O caminho até lá, não tem lógica e é um caos, afinal à deriva nada se governa, é a anarquia.

Como tem embasamento teórico, teoria que não é minha, segue o texto embasado.