Apatia cinematográfica

3 03 2009

Gespenster

OLHAR O QUE SE TEM

1° de março foi o último dia no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) da mostra intitulada “Novo Cinema Independente Alemão”, contou com 18 filmes independentes, produzidos nos últimos dez anos. A esta produção atribui-se o valor de um novo movimento cinematográfico da Alemanha, que retoma, em certa medida, o movimento dos “cinemas novos” dos anos de 1950 – 1970. A matéria-prima de boa parte dos filmes em exibição busca no indivíduo ou na célula familiar a reverberação do coletivo e da sociedade, sem com isso fazer uso de determinismos ou lugares-comuns, do tipo: uma família desequilibrada formará indivíduos socialmente perturbados ou perturbadores, etc. O caminho é inverso, e de raciocínio diverso. O que se tem é o resultado social familiar ou civilizatório, a trama parte daí e os questionamentos e possíveis respostas são dados ao tempo e sabor do seu relacionamento e sua interação ou não com o mundo.

É o caso de “Fantasmas” (Gespenster), dirigido por Christian Petzold. Partimos de Nina, uma garota pouco expressiva, introvertida entre suas franjas e olhar sério. Nina encontra Toni, outra garota de onde a história se reparte, Nina e Toni nada partilham do mundo e talvez por isso sejam impelidas a compartilharem de alguns eventos juntas, como pequenos furtos numa loja de departamentos. Nina acredita partilhar com Toni também uma amizade. Outro ponto da história que virá de encontro com essas duas garotas vem de Paris, de uma mãe que a mais de uma década procura sua filha desaparecida enquanto fazia compras. Uma história corriqueira, não fosse a particularidade da menina que supostamente ela acredita ser a sua filha desaparecida.

O filme não trata da dor de uma mãe que perdeu seu filho ou não teve oportunidade de ver um filho crescer, assim como não trata da filha que por esse trauma transformou-se ou teve a vida transformada. A narrativa se constrói a partir do que se tem: uma mulher desorientada na busca incansável e doentia pela perda, e duas garotas desorientadas construindo um imaginário presente. O que podia ser e não foi, não interessa, como o que poderia vir a ser também não. O foco está na interação de duas partes desencaixadas e autônomas, interessa as relações e os diálogos que se estabelecem a partir daí.

O título “Fantasmas” porque deixou de ser aquilo que nunca foi. E já não importa se foi ou não, pois desde o princípio se parte do que se é, independente e deslocado de antecedentes, de memória ou de identidade. “Mas aquela era uma menina fantasma. É isso que torna a cena trágica. Que alguém que nunca tenha tido uma casa seja obrigado a deixar a casa que nunca teve”, diz Petzold em entrevista.

Dos 18 filmes, assisti 15. Os temas indivíduo – coletivo, núcleo familiar e protagonistas apáticos, são recorrentes. Farei um esforço, nas próximas semanas de escrever sobre os filmes, ou sobre as impressões que estes me deixaram. De longe no entanto foi “Fantasmas” que mais me impressionou, me transtornou e deixou ecoando em mim as coisas não ditas, os sentimentos escorados, talvez suspensos.

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DO CAOS

21 01 2009

Me falta tempo. Sobram idéias.

Escrevi esta resenha depois da diretora do filme de “A via láctea”, Lina Chamie, ter apresentado o making of e ter nos contado um pouco mais sobre o filme, sua produção e roteiro. Fui surpreendida, esperava bem menos de um filme com a sinopse apresentada.

Lina Chamie nos defronta com peculiaridades lingüísticas em seu modo de fazer cinema. Isso ficou claro com a apresentação do making of do filme – outrora em cartaz nos cinemas – “A Via-Láctea”. Uma das peculiaridades está justamente em como o filme foi propriamente feito: as filmagens externas foram em quase que sua totalidade produzidas no cotidiano real da cidade. Não há cenário, a cidade participa verdadeiramente do filme, o que dá certo caráter “documental” a ele, contudo, é importante ressaltar que não se trata de um documentário, mas existe esta tensão entre a denúncia documental dos quadros reais da cidade com a história e personagens fictícios que ocupam e vivem no espaço, na metrópole caótica e que nos é comum, isso nos aproxima do filme, que todavia causa estranhamento com sua linguagem fragmentária e caótica. O foco dessas filmagens externas está sempre no tráfego, no trânsito engarrafado, por todos nós muito bem conhecido. Outra característica singular é a manipulação das imagens. Lina Chamie afirma que seu filme é atípico, quanto ao principal meio cinematográfico para se contar uma história, pois em A Via Láctea sua qualidade é imprecisa e fragmentária, porém é justamente através do caos, fortalecido pelo caos urbano, e da imprecisão, que o espectador é levado, à deriva, pela narrativa quase que cíclica e logo, na minha opinião, a diretora faz uso sim da manipulação, dos cortes e colagens para contar sua história. É claro que não conta de maneira tradicional e linear, mas se pode tirar conclusões a respeito do enredo.

A exibição do filme trouxe além de surpresas narrativas da história em sim, como também revelou outra riqueza não apresentada na sua complexidade no making of. São elementos (des-) estruturadores: a imagem, elemento natural do cinema, mas que ganha dinâmica pela repetição de frames, fragmentados do curso principal da história, que é sempre interrompida e a reprodução de cenas com mudanças de ângulos e falas; a sonoridade do filme, onde além da trilha sonora se introduz poemas declamados, que se repetem e se confundem; a lógica narrativa psíquica, ou seja, estamos no filme quase que inteiro imbuídos nas digressões labirínticas de Heitor (personagem principal), isto atrelado à não-linearidade e repetição dos acontecimentos confundem o espectador e constroem uma realidade paralela, virtual da própria história; a narrativa usa essa lógica e esta se sub-divide em camadas: o passado e sua memória (que pode ser transfigurada), o futuro e o seu desejo, que por si só não se atém à dados de realidade no geral e o presente que não propriamente é o que se está vivenciando no momento mas é o momento mais real presente na psique do personagem. Essas camadas se entrecruzam e se sobrepõem, não há uma cronologia temporal dos fatos, aliás nem os fatos têm uma ordem, por isso a possibilidade de sua repetição. Cada nova seqüência das mesmas cenas, com alterações substanciais, traz um novo sentido à ela. O filme trabalha com sentimentos “fortes”: o amor/paixão, o ciúmes, o medo, a perda e a morte. Nas palavras de Chamie, trabalha o sentimento e não o concreto, por isso se fragmenta, é etéreo. Mas também vejo que isso se espraia para os sentidos, ocorrência dada pelos elementos acima apresentados. Tudo serve de amálgama para construção do caos (ou seria a desconstrução da ordem?).

O elemento que é o cerne no cinema, a imagem, passa por um processo de sua desconstrução em A Via Láctea. A cidade aqui entra não apenas como pano de fundo, mas é ela que acelera e desacelera o ritmo do filme. O caos no fim é o que norteia o filme, o caos interior de Heitor se relaciona com o caos da cidade, ambos se confundem em certos momentos. A origem desse caos está na perda, no fim de um relacionamento amoroso que desencadeia a constatação de uma perda maior, do controle sobre a vida. Aqui cabe o paralelo com o caos urbano, não somos capazes de controlar e administrar nossa vida, pois dependemos da cidade, que empata, congestiona, impede. No entanto é nessa mesma cidade que se promove os encontros, que se vive o amor.

Ao meu ver, este filme foi feliz, usou recursos de recortes e repetições já conhecidos, como no filme Corra, Lola, corra, mas inova por utilizá-lo com modificações sutis. O resultado é um filme que conta uma história de amor, casual, comum, mas que intenciona narrar outra, e isso é proposital, pois é uma metáfora lingüística, ao passo que a (des-) construção transtorna o espectador que não espera pelo fim. Esse sentimento é forte, e não precisa de enredo, a perda se entende pelo contexto e se sente pelo fato, assim como o amor.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”
(“Dos três mal-amados”, João Cabral de Melo Neto)