Dia dos Namorados (ou Duas Casas)

14 06 2010

16 de março 2009 – Casa 1

Olha, boa sorte com o desenrolar dos seus projetos todos. Isso de se mudar de casa eu não senti nunca na minha própria pele – moro na mesma casa e tenho aqui o mesmo quarto com quase que também os mesmos móveis de sempre. Enfim… Houve épocas em que eu pensava nesse meu sedentarismo com muito ressentimento. Os amigos, boa parte deles, eles moravam já fora da casa dos pais. E havia aqueles que moravam ainda com a família, mas naqueles lugares “próximos” onde eu me sentia intimidado – “o garotinho lá de Itaquera”. Eu amaldiçoava minha casa e a vizinhança e não sabia se deveria chamá-las de abrigo ou de prisão. E essa irritação indisfarçada angustiava os meus pais – “o que diabos acontece com esse garoto” – enquanto eu, aqui do meu lado, internamente e com a ajuda de alguns rudimentos de psicanálise, eu os ofendia dizendo que “esse complexo edipiano já foi longe demais”.
Quanto a isso, hoje, eu já me sinto um pouco mais pacificado. Um conjunto habitacional aqui, um favelão ali, um enclave vigiado de casas que afetam alguma ostentação (a minha própria casa que parece um “bunker”) – de fato tudo por aqui é seco. Boa parte das pessoas – filhos de lavradores ou eles mesmos lavradores emigrados – perdeu o que era referência de uma vida rural, mas sem que isso implicasse em “urbanidade” (necessidade de encontros, de um espaço público onde a própria vida é posta em avaliação e julgamento). O “modo de vida” aqui – com o seu privatismo selvagem, suas neuroses familiares cultivadas e a paranóia no trato com o outro – isso se fabrica, se sustenta, se compensa, no sonho de se ter um automóvel, na ida ao shopping center e no descanso frente à televisão.
Não sei… Se essa casa, essas pessoas e esse lugar, se isso tudo existe, isso é então legítimo. Se é real, é legítimo. E toda vez que eu subia caminhando da estação do metrô para a minha casa, quando o peito apertava, eu repetia a mim mesmo (como eu ainda faço): “se é real, é também legítimo”. Tão real e tão legítimo quanto o cotidiano dos amigos que moram no Itaim Bibi, Higienópolis ou Perdizes. Tão real e tão legítimo quanto a vida que se leva, sei lá, em Los Angeles, em Argel ou em Bruxelas. E acabei fazendo desse desconforto o meu trabalho: aqui, da minha escrivaninha surrada, num quarto em Itaquera, eu sinto o deserto que não pára de crescer, e eu insulto o deus responsável por isso.
Acho agora que, através de linhas tortas, acabei escrevendo certo. Sinto o meu peito não tão abstrato como ele costumava ser, sinto-o mais concreto, mais consistente. (Essa talvez seja a tal da transformação que os amigos que já passaram dos trinta anos, que alguns deles, tentam me descrever.) Quando penso no “deixar a casa dos pais”, penso nisso sem o ressentimento de antes (“quando eu sair daqui eu jogarei os sapatos pela janela do carro pra não ter de levar sequer a poeira deste lugar comigo”) e sem impaciência. Tentei, e ainda tento, dar um sentido ao sofrimento – e vi que isso era bom. Quem conhece o clima lá do alojamento estudantil da USP, com seu anedotário de humor negro, sabe quanta gente “verde demais” pra uma vida mais “adulta”, quantos meninos e quantas meninas, já perderam o rumo. Vejo hoje que essa possibilidade seria assustadoramente plausível pra mim.

23 de março 2009 – Casa 2

Quando tinha 5 anos mudei de casa pela primeira vez, é uma das poucas lembranças (boas) que tenho da minha infância – o resto perdeu-se ou confunde-se com sonho, ou o contrário. A casa onde morei até os 5 era de aluguel, mas era meu território, tudo ali me pertencia e tinha propriedade em tudo que ali existia, do quintal com Maria-sem-vergonhas onde brincava com os gatos, da escada encarpetada que era minha verdadeira sala de estar, e da “varanda” (a sala se abria para a laje da garagem, cabia a piscina de plástico, sobrando espaço para andar de bicicleta, brincar de casinha e ainda meu pai deitado depois do almoço) que aos meus pequenos olhos era imensa, era de onde me projetava para o mundo, de onde via as crianças mais velhas brincando na rua, onde muitas vezes tentei, a conselho sábio de meu pai, “paralisar” os passarinhos jogando sal na sua cauda… Aquela casa era de aluguel, fomos assaltados uma vez, o bairro não era dos melhores, o momento político e econômico ainda menos – Sarney, inflação, Guerra nas Estrelas, Xuxa – mas foi ali que entendi, vivi um lar. Até pouco antes de me mudar era filha única, minha irmã nasceu e 8 meses depois mudamos, para onde até hoje minha mãe e irmã moram. A casa da rua Duitama, a de aluguel, também era mais minha porque não dividia com mais ninguém.

O apartamento do Arouche, também de aluguel, foi mais meu também porque não dividi. E pensar que em 20 anos algo tão similar estaria para acontecer, quando eu recém mudada brincava entre caixas de papelão, apertando plástico-bolha, descobrindo naquele labirinto um novo território, um espaço sem símbolos estabelecidos, sem memória, sem precedentes. Minha despedida do Arouche foi uma mistura de sentimentos, comparando à Tania de 5 anos, senti-me acuada e curiosa por me mudar, triste e aliviada por sair. Essas são algumas das casas em que vivi. Morar e viver numa casa há diferença de sentido, morei em muitos lugares, mas não vivi em todos. E acho que não importa muito a casa, se como no seu caso for a única, ou como outros, meu avô, por exemplo, que perdem até noção de onde moram, pela constância em que mudam de casa, de cidade, de país, talvez represente um traço da personalidade da pessoa: flexível, inconstante e aberto ou sistemático, estável e consolidado – que também não quer dizer ser vantajoso essa ou aquela característica, se isso de fato se aplica. A grande diferença é se mora ou vive aquela casa ou aquelas casas.

Viver uma casa é algo muito particular de cada pessoa, assim como é particular ter o desprendimento, ou necessidade de mudar ou não (seja de casa ou mudar no sentido amplo da coisa), e não quer dizer que viver seja o que se busca, a casa pode servir de porto seguro, em terra firme, bem como pode ser apenas um abrigo passageiro, sem vínculo e sem história. E se ampliamos a escala dessa casa que digo viver, veremos que a cidade é a progenitora, a grande casa. Vivemos na cidade, alguns moram hospedeiros, mas os que entendem a cidade como casa vivem de fato nela e viver é algo complicado, não basta estar e ser. E de fato, as coisas se legitimam quando as entendemos como real e verdadeiro, e não importa o que escolhemos como verdade. Sendo assim, viver a cidade, a casa, é viver o que escolhemos como casa e cidade, que pode ser qualquer coisa, nós é que atribuímos valores e significados para elas. Então respondendo, sua casa, onde moram também seus pais, é se você assim escolher, se for real e verdadeiro o que sente pela casa, que seja ressentimento, sua vida, porque remete às suas vivências.

Uma grande vantagem, na minha opinião, quando se vive por longos anos no mesmo lugar, com os mesmos móveis, etc, o cotidiano não exige desprendimento de energia, as lembranças ficam registradas em cada parte da casa. Aposto que deve ter um móvel seu que pode contar uma grande história, ou várias. Isso estabelece intimidade com a casa, como bons relacionamentos, sejam quais forem, a energia se concentra na vivência do outro, a tal alteridade, porquê é vivenciar a si mesmo, com uma mútua apropriação do outro em si e mesmo assim descobrir dentro de sua propriedade novos territórios.

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INVERNO

22 06 2009

DISTÂNCIA

ENTERRAR OS MORTOS

Irresoluta manteve-se serena, apesar de sentir um grande abismo cindindo seu peito. Ele se aproximou e lhe disse que era hora de decidirem, com os olhos ternos esperou por uma resposta. Ela suspirou, lhe faltou a voz, abraçou-o longamente e aquilo significou um sim. Isto não aliviou aquele sentimento estranho que cada vez mais tomava sua consciência. Aquele momento deveria representar a felicidade plena, a segurança de estar entre os braços de quem amava, havia ali todos os elementos necessários para nisso apostar, todavia sentia se afastar de si incontrolável e fora de seu alcance, como se ela não pudesse participar dela mesma.

Teve vontade de rir, em seu descontrole sobreveio ao invés disso apenas lágrimas, e quanto mais se esforçava para estar presente em sua vida, mais se distanciava dela. Tornou-se sua própria desconhecida e então constatou ser esta a mulher daquele outro, do homem que perdera. Esta era ela, perante a imagem que aquele lhe fez, a representação que se esforçou para sê-la. Apenas uma idéia que depois de mitigada, quando todo o furor e ímpeto se abrandaram, recalcou em sombra. Ainda que tenha aceitado, submissa, se afastar, recomeçar nova vida, aquele homem que por medo dispensou, acovardada de ser ela o que sempre foi, permaneceu retalhado em minúsculos pedaços, diluídos em qualquer coisa alimentando-a do desejo de ainda ser, com ele estar.

E aquilo fazia sentido? Não, ela sabia, mesmo deixando se enganar pela fantasia de reencontrá-lo, como não tinha cabimento tudo aquilo. Tinha certeza de estar tudo acabado, podendo aquele homem aparecer e nada sentir, que não fosse ressentimento, dor e desamparo. No entanto, em sua lembrança aqueles retalhos que cultivava na memória davam-lhe a idéia de ainda tê-lo consigo, de ainda compartilhar. Não conseguia desconstruir a imagem que fez e pela qual o admirava, não sentia senão culpa de tê-lo perdido, não restava senão medo que aquele sentimento nunca mais lhe arrebatar, jamais se repetir. Percebeu então que era este o motivo que a mantinha inerte, por isso retinha o fantasma em sua memória, que a impedia de seguir adiante.

Ter esta consciência dificultou ainda mais viver contente. Vivia com outro, com o qual não podia estar integralmente, pois parte de si continuava em poder de um ser inexistente, alguém desintegrado, dissolvido em lembranças. E ela mesma via se desmanchar, perder-se. Sua vida era um amar em luto; com ordem invertida pois não o havia enterrado. O falaz defunto fazia-se mais presente que o abrigo dos braços do outro. Deitada na cama sentia esvaziar-se enquanto ele abraçava-lhe, a cada vão prazer outra parte sua despregava-se do seu ser. Tornava-se mais e mais parco corpo de sentimentos vivos e mente farta de lembranças mortas!

Deteve-se. Anestesiou seus pensamentos. Soltou-se de seu amável abraço. Sorriu e este entendeu serem seus esforços para ela insuficientes, e ela de olhos serenos, acariciou suavemente seus cabelos, recostou-se sobre seu peito, arfou distante. Sentiu o passado presente calcificado em seu corpo e impregnado em sua alma, e o presente que vivia era imemorial, baço e vazio. Desfaleceu deste infortúnio, não encontrava sequer ódio para recobrar suas forças. Sentiu-se abraçada, envolta no ar cálido e pungente, permitiu que o abraço invisível lhe tocasse, e o tato lúgubre a enterrou. Então fez-se inverno, expirou.

Aqui finda a triologia narrativa de uma mesma história protagonizada três vezes de maneira diferente, a segunda parte https://linha10.wordpress.com/2009/05/25/competir-no-espelho/ e a origem de todas elas está a “tatear o ar” em outro blog.





COMPETIR NO ESPELHO

25 05 2009

narciso-caravaggio

Como pôde ser tão estúpido? Estava evidente que ela ainda não o esquecera! Ele o substituiu, é verdade, mas aquele outro, aquele fantasma ainda exercia poder sobre ela, continuava a tomar-lhe sua preciosa presença, e esta tornava-se imaterial, volátil. Estava tão inseguro que duvidava até de seu sorriso franco, pensava que aquele sorriso maravilhoso, mesmo postado à sua frente remetia ao outro, que aqueles belos dentes brilhavam de ver, mesmo que na memória, outro alguém. Como sucessor, apesar de ela parecer feliz ao seu lado, via aquilo como uma enorme desvantagem, sua referência era o outro. Ah! Como desejava ter sido primeiro, mesmo que isso significasse não estar mais ao seu lado, ao menos seria poupado dessa angústia de ser preenchedor de seu vazio. Que terror sentia só de pensar que seu abraço, esforçado para ser terno, envolvente, especial e que lhe transmitisse segurança, estava fadado ao fracasso pois não precedeu aquele abraço, que o outro pôde dar quando ela precisou, quando pediu, quando chorou, ou quis comemorar, ou para consolar.

Não é possível estar plenamente feliz tendo como parâmetro algo que já não mais se tem, que se perdeu, que não existe mais. Aí constatou uma dúvida esmagadora: não estaria ele mesmo usando o outro como parâmetro? Seria possível ser sua insegurança tamanha, a ponto de espelhar-se no homem que perdera a mulher com a qual estava? Foi tomado pelo temor de perdê-la, de que seu empenho em ser melhor que o outro tornava-o menos que si mesmo, o transformando em metahomem, numa citação. Percebeu que concentrar-se em apenas acertar não o preservava dos erros, estar obstinado em ser bom companheiro não garantia uma boa companhia, preocupar-se apenas em não falhar, o impedia de compartilhar as dores e os tropeços com ela. Na verdade, o perfeccionismo só funciona para narcisistas, porque alimenta o ego, e seu ego tinha fome de satisfazê-la, de vê-la realizada. Entretanto, sua única satisfação seria ser o único, sem precedentes, sem sucessores, realizar-se significava perder a memória e impedir as expectativas e para isso ele não poderia mais ser uma breve e superficial associação do outro!

Estava resoluto de que deveria desintegrar um homem que nunca conheceu, seu rival, seu espelho que contraditoriamente era em quem se apoiava quando não a compreendia, quando se via impotente diante de seus olhos úmidos e vermelhos. Seu inimigo também dava-lhe abrigo, pois tinham algo em comum, algo os ligava, compartilhavam de algo forte e determinante, amavam a mesma mulher. Destruir sua lembrança era matar um pouco de si, e diante dessa fraqueza, desejava sua morte, que em seu enterro estivesse presente e pudesse consolar sua mulher da viuvez e do luto, estando por fim livre desse infortúnio. Mas de fato sabia que enterrar o homem não aliviaria o desconforto de tê-lo como predecessor, pelo contrário, ela provavelmente o teria como imagem intocada, uma lembrança idealizada da realidade. O jeito era conformar-se de que houve um outro, de que este também gozava da mesma vivência que tivera.

Pois sim, foi estúpido! Ela não o esquecera e, no entanto, terminava por escolher ele como companheiro e não o outro, estava tão cego com seu ciúmes, tão inseguro que não percebeu o que significava ela ter deixado o outro para viver com ele. E na sua ignorância, ele mesmo forjara um espaço vazio na cama. Cada vez que ele a abraçava ingenuamente entregava-a para o outro. Ele se postou atrás deste espelho e todos seus esforços não se transpareciam, eram apenas reflexos, sem um significado real por si só, dependiam de um dado comparativo e só existiam como reação. Por nenhum momento gozou de sua companheira, esta representou o simulacro de seus desejos, de uma mulher que nem sequer existiu.





Ja Bitte!

10 01 2009

Das Ideal

  

Kurt Tucholsky

 

 

  Ja, das möchste:
Eine Villa im Grünen mit großer Terrasse,
vorn die Ostsee, hinten die Friedrichstraße;
mit schöner Aussicht, ländlich-mondän,
vom Badezimmer ist die Zugspitze zu sehn –
aber abends zum Kino hast dus nicht weit.
Das Ganze schlicht, voller Bescheidenheit:

Neun Zimmer – nein, doch lieber zehn!
Ein Dachgarten, wo die Eichen drauf stehn,
Radio, Zentralheizung, Vakuum,
eine Dienerschaft, gut gezogen und stumm,
eine süße Frau voller Rasse und Verve –
(und eine fürs Wochenend, zur Reserve) –
eine Bibliothek und drumherum
Einsamkeit und Hummelgesumm.

Im Stall: Zwei Ponies, vier Vollbluthengste,
acht Autos, Motorrad – alles lenkste
natürlich selber – das wär ja gelacht!
Und zwischendurch gehst du auf Hochwildjagd.

Ja, und das hab ich ganz vergessen:
Prima Küche – erstes Essen –
alte Weine aus schönem Pokal –
und egalweg bleibst du dünn wie ein Aal.
Und Geld. Und an Schmuck eine richtige Portion.
Und noch ne Million und noch ne Million.
Und Reisen. Und fröhliche Lebensbuntheit.
Und famose Kinder. Und ewige Gesundheit.

  Ja, das möchste!

Aber, wie das so ist hienieden:
manchmal scheints so, als sei es beschieden
nur pöapö, das irdische Glück.
Immer fehlt dir irgendein Stück.
Hast du Geld, dann hast du nicht Käten;
hast du die Frau, dann fehln dir Moneten –
hast du die Geisha, dann stört dich der Fächer:
bald fehlt uns der Wein, bald fehlt uns der Becher.

Etwas ist immer.

  Tröste dich.

Jedes Glück hat einen kleinen Stich.
Wir möchten so viel: Haben. Sein. Und gelten.
Daß einer alles hat:
  das ist selten. (1927)

 

DIE WAHRHEIT OHNE EHRLICHKEIT

Tania Knapp

 

 

Ich bin zufrieden, glücklich und reif.

Wäre ich aber doch (noch) reich!

Dass ich jeden Tag esse,  bin ich dankbar.

Wäre doch das Essen mehr kostbar!

 

Meine Kinder sind gesund.

Hätten sie einen kleineren Mund,

damit ich weniger Jammer

höre. Das wär der Hammer!

 

Natürtlich will ich schön aussehen,

um mich besser auszustehen.

Ein bisschen Eitelkeit –

so vergesse ich die Traurigkeit

 

Ich weiss schon Bescheid:

für das Leben tut das nicht Leid.

Egal, was man hat oder tut,

fehlt was; was bringt den Mut?

 

Mutig wäre ich noch heute,

wenn ich nicht fürchtete, die Leute,

die über mich lachen

Könnte das mir nichts ausmachen!

 

Das Leben ist zu kurz.

Ich suche kein Versteck, nur Schutz.

Ich will kein grosses Haus,

sondern ich gehe einfach aus…

 

Das beste aus dem Leben

kommt nicht von Geld und Regen,

jedes Stück unseres Herzens ist voll

mit Liebe, Fröhlichkeit und Wohl.

 

Weil die Welt sich weiter dreh’,

tut uns das weh,

weil niemand alles hat,

wird niemand vom Traum satt.

 

 (14. 10. 2004)

 

Aos que não entenderam bulhufas, pech! (azar!), não tenho tarimba para traduzir, ainda mais poesia.





UM RECOMEÇO PROVÁVEL

10 01 2009

Semanas depois de decidir sair do apartamento, onde, por cinco intensos anos de sua vida, morou com Joana, Matheus recebe inesperadamente uma carta:

Matheus,

fazem três dias que estou em Paris e só pude pensar que deveria responder o seu bilhete. Apenas consegui lê-lo hoje, não tive coragem de fazê-lo antes. Foram três longos e infindáveis dias e ainda estou descobrindo viver separada e desligada de tudo o que poderia dizer que conhecia. Toda a familiaridade, até os mínimos hábitos cotidianos, abdiquei de tudo, apostando num recomeço, num aprendizado do desapego. Grande parte desse tudo é você, não tenho dúvida da importância que você tem em minha vida. Deixar para trás meu passado, minha casa, minha família, meus amigos, nossa história, não significa negá-los. Foi uma decisão difícil me separar do passado. Eu sei que essa decisão te assassinou, como também me assassinara. Minha esperança está no recomeço, naturalmente não partimos do zero, como você disse, cada um carrega parte importante do outro em si. Sua parte vive dentro de mim, está incorporada na minha essência e desvanecer-me dela seria suicídio.

Se conseguimos introjetar nos outros parte de nós, então o amor não falhou, pois é esse seu propósito, amamos os outros por eles nos incorporarem e vice-versa. Não sei dizer até o momento o que faltou ou sobrou, e isso não tem a mínima importância, mas definitivamente não foi o amor. A experiência de três dias sozinha e solitária num lugar completamente estranho e novo me trouxe outra sensação de vazio: vazios estão os outros por não me conterem, e eu estou cheia, farta, ainda imbuída de você, exalando seu cheiro, tocada pelas suas carícias madrugada adentro, embalada com seu sorriso franco, transpirando seus beijos e isso tudo dói infinitamente. Dói ver a cama vazia, sentir que ela está muito maior e menos cálida, sentir os pés frios sem ter quem os aqueça, passar por uma banca de frutas, ver morangos e não fazer sentido algum comentar que vi morangos, perceber que o romantismo só existe quando se constrói novos significados para as coisas, hoje morangos são apenas morangos.

Quero transbordar e derramar nos outros o que carrego, de maneira nenhuma poderia deixar-te esquecido num canto! Você é minha moeda de escambo, assim como eu sou a sua. Eu desejo que você não se sinta vazio, ou cheio como eu. Seja um semeador, plante em cada ser, uma parte que seja sua e o mais importante, esteja pronto para receber parte dos outros, estes te semearão, como eu também. Verá então que estará, como sempre esteve, sozinho, e seu vazio incomensurável só existe porque pôde depositar-se nas pessoas que ama.

Sua fiel depositária.

Sempre Joana

Está é a primeira resposta-correspondência, para simular um diálogo. A vontade veio depois de ler isto:
http://andretoso.wordpress.com/2008/09/13/quando-o-fim-e-inevitavel/