LINHA 10 CONGESTIONADA

18 03 2009

Quanta tensão! Existe uma infinidade de fatores e motivos provocando isso. Há um número incontável de responsabilidades e compromissos preocupantes e mais um sem-número multiplicado à isso de coisas em aberto, indefinidas e incontroláveis consumindo e consumindo. A prescrição médica indica: repouso absoluto; sossega-leão de duas em duas horas. Quantas palpitações! Quanta desritmia, quanto descontrole! Pergunte ao criador onde fica o botão de desliga. Erro de fabricação, se desligar a coisa desanda, na verdade não anda mais, deixa de funcionar. E nem assistência técnica tem, essa é a desvantagem dos produtos importados sem certificado de procedência nem garantia de origem. Paciência, o jeito é recauchutar os estragos com as gambiarras locais mesmo.

Uma delas é a dispersão. Alguns descolam um tal de “foda-se” que por tempo indeterminado, dependendo do modelo, com efeitos colaterais diversos e adversos, sem muita garantia de qualidade e validade, dá conta de entreter, abstrair, dissipar, esquecer ou até mesmo perder um número x de códigos e informações. Há vários modelos no mercado que mais ou menos correspondem às tendências do consumo geral. Tem também um experimento novo, ainda sem muita adesão, que consiste num tratamento mais a longo prazo, promete ser mais saudável e eficiente, mas não há dados dos resultados reais e efetivos. A teoria é que mente e corpo devem funcionar em equilíbrio, num trabalho de cooperação participativa. Dão a isso o nome popular de alongamento, mas há vertentes diferenciadas como meditação, esportes com desprendimento de adrenalina entre outros. Não importa, no desespero se faz qualquer negócio, qualquer picaretagem alimenta esperanças, até simpatia, modalidade já há muito em desuso e completamente fora de moda.

Os pensamentos andam, não, correm, voam, mergulham caóticos, são comboios e mais comboios desenfreados, não respeitam uma regra de trânsito se quer. É um balaio de gato que nem a aposentada em avançados anos com experiência em crochê, tricô e ponto-cruz desembaraça esse emaranhado. Credo! Será que a tecnologia DOS não vai lançar um programa que ordene, controle essa enxurrada de informação com velocidade de milhões de bits-luz por segundo? Enquanto o futuro não chega trazendo milagres tecnológicos-econômicos-amorosos-existenciais, o jeito é respirar fundo o monóxido de carbono que resta na atmosfera tensa e incompreensível, convidar o irmão Jacob e o João Pestana para a festa entorpecida de sensações contraditórias, apagar as luzes da cidade arruinada e rezar para que no fim do túnel ressurja o sonho.





DO CAOS

21 01 2009

Me falta tempo. Sobram idéias.

Escrevi esta resenha depois da diretora do filme de “A via láctea”, Lina Chamie, ter apresentado o making of e ter nos contado um pouco mais sobre o filme, sua produção e roteiro. Fui surpreendida, esperava bem menos de um filme com a sinopse apresentada.

Lina Chamie nos defronta com peculiaridades lingüísticas em seu modo de fazer cinema. Isso ficou claro com a apresentação do making of do filme – outrora em cartaz nos cinemas – “A Via-Láctea”. Uma das peculiaridades está justamente em como o filme foi propriamente feito: as filmagens externas foram em quase que sua totalidade produzidas no cotidiano real da cidade. Não há cenário, a cidade participa verdadeiramente do filme, o que dá certo caráter “documental” a ele, contudo, é importante ressaltar que não se trata de um documentário, mas existe esta tensão entre a denúncia documental dos quadros reais da cidade com a história e personagens fictícios que ocupam e vivem no espaço, na metrópole caótica e que nos é comum, isso nos aproxima do filme, que todavia causa estranhamento com sua linguagem fragmentária e caótica. O foco dessas filmagens externas está sempre no tráfego, no trânsito engarrafado, por todos nós muito bem conhecido. Outra característica singular é a manipulação das imagens. Lina Chamie afirma que seu filme é atípico, quanto ao principal meio cinematográfico para se contar uma história, pois em A Via Láctea sua qualidade é imprecisa e fragmentária, porém é justamente através do caos, fortalecido pelo caos urbano, e da imprecisão, que o espectador é levado, à deriva, pela narrativa quase que cíclica e logo, na minha opinião, a diretora faz uso sim da manipulação, dos cortes e colagens para contar sua história. É claro que não conta de maneira tradicional e linear, mas se pode tirar conclusões a respeito do enredo.

A exibição do filme trouxe além de surpresas narrativas da história em sim, como também revelou outra riqueza não apresentada na sua complexidade no making of. São elementos (des-) estruturadores: a imagem, elemento natural do cinema, mas que ganha dinâmica pela repetição de frames, fragmentados do curso principal da história, que é sempre interrompida e a reprodução de cenas com mudanças de ângulos e falas; a sonoridade do filme, onde além da trilha sonora se introduz poemas declamados, que se repetem e se confundem; a lógica narrativa psíquica, ou seja, estamos no filme quase que inteiro imbuídos nas digressões labirínticas de Heitor (personagem principal), isto atrelado à não-linearidade e repetição dos acontecimentos confundem o espectador e constroem uma realidade paralela, virtual da própria história; a narrativa usa essa lógica e esta se sub-divide em camadas: o passado e sua memória (que pode ser transfigurada), o futuro e o seu desejo, que por si só não se atém à dados de realidade no geral e o presente que não propriamente é o que se está vivenciando no momento mas é o momento mais real presente na psique do personagem. Essas camadas se entrecruzam e se sobrepõem, não há uma cronologia temporal dos fatos, aliás nem os fatos têm uma ordem, por isso a possibilidade de sua repetição. Cada nova seqüência das mesmas cenas, com alterações substanciais, traz um novo sentido à ela. O filme trabalha com sentimentos “fortes”: o amor/paixão, o ciúmes, o medo, a perda e a morte. Nas palavras de Chamie, trabalha o sentimento e não o concreto, por isso se fragmenta, é etéreo. Mas também vejo que isso se espraia para os sentidos, ocorrência dada pelos elementos acima apresentados. Tudo serve de amálgama para construção do caos (ou seria a desconstrução da ordem?).

O elemento que é o cerne no cinema, a imagem, passa por um processo de sua desconstrução em A Via Láctea. A cidade aqui entra não apenas como pano de fundo, mas é ela que acelera e desacelera o ritmo do filme. O caos no fim é o que norteia o filme, o caos interior de Heitor se relaciona com o caos da cidade, ambos se confundem em certos momentos. A origem desse caos está na perda, no fim de um relacionamento amoroso que desencadeia a constatação de uma perda maior, do controle sobre a vida. Aqui cabe o paralelo com o caos urbano, não somos capazes de controlar e administrar nossa vida, pois dependemos da cidade, que empata, congestiona, impede. No entanto é nessa mesma cidade que se promove os encontros, que se vive o amor.

Ao meu ver, este filme foi feliz, usou recursos de recortes e repetições já conhecidos, como no filme Corra, Lola, corra, mas inova por utilizá-lo com modificações sutis. O resultado é um filme que conta uma história de amor, casual, comum, mas que intenciona narrar outra, e isso é proposital, pois é uma metáfora lingüística, ao passo que a (des-) construção transtorna o espectador que não espera pelo fim. Esse sentimento é forte, e não precisa de enredo, a perda se entende pelo contexto e se sente pelo fato, assim como o amor.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”
(“Dos três mal-amados”, João Cabral de Melo Neto)





DERIVA COM EMBASAMENTOS

7 01 2009

O texto que segue é uma resenha da palestra que assiti do físico Luis Alberto Oliveira, sua tese é na verdade sobre a civilização à deriva como um todo. Particularizei o global, tirei parte do todo e claro, o sentido já não é mais o mesmo. Afinal, estou à deriva.

CIVILIZAÇÃO EM MUTAÇÃO

O palestrante discorreu sobre o momento mundial que estamos vivendo, o que ele representa e de onde provém esta situação “atípica consolidada” e para onde se encaminha a civilização. Luis Alberto Oliveira afirma, e eu temo em concordar, que o momento atual constitui uma crise consolidada, quase como uma revolução instituída. É como se dissesse: “eu luto, mas não sei quem é o inimigo, muito menos os ideais que defendo”. A massificação deixou diluídos os conceitos polarizados e polêmicos: se antes se tinha ou capitalismo ou comunismo, hoje temos coligações de partidos sem convergências ideológicas, muito menos afinidades partidárias; se antes tínhamos ou mundo desenvolvido ou subdesenvolvido, hoje temos a globalização, os países emergentes, miseráveis, sem saúde e educação, infra-estrutura sanitária, mas que tem poder de mercado para ter seu ipod, e ir no mínimo à lanhouse mais próxima…

No decorrer da palestra, Oliveira explana como essa crise, deslocada de sua essência – a crise é um fato raro para melhorar ou piorar algo, ou seja seu conceito é semelhante à criação – por sua constância engendra, somado ao desvio, uma mutação, uma mudança de era civilizacional, é um momento de transição. Tal mutação relaciona-se como o acaso, visto que é imprevisível pois gerado da crise instituída. Por sua vez o acaso, explicou Oliveira, fora classificado por Aristóteles, para compreender o mundo e seus fenômenos, em ignorância (se desconhece sua causa), coincidência (encontro de casualidades) e puro ou desvio (arranjos de unidades indivisíveis – átomo- mais vazio, que se chocam aleatoriamente). Pensando nesta última classe de acasos, a errância inerente das partículas instaura um mundo que se renova permanentemente a partir do desvio, portanto é imprevisível e aleatório, não tem começo, nem meio ou fim.

Esta errância aleatória renovando e mudando constantemente as relações estabelecidas está diretamente ligada à dobra ou à “deslinearidade”, ambos conceitos largamente abordados pelo palestrante. A matemática tradicional era entendida linearmente, ou seja, “o todo é a soma das partes”, isso significa que não há nada no todo que já não estivesse contido nas partes, mas como se explica quando isso não ocorre, quando uma mutação ocorre e o que se tem no todo não é em absoluto relativo às partes? Aí nos é apresentado a matemática deslinear, onde o todo não é a somatória das partes, mas produto de seus vários desdobramentos, suas errâncias. “ O comportamento sob certas regras, ao agir modifica as próprias regras e altera o próprio agente.” Como exemplo Oliveira citou a história dos lobos e coelhos, onde os coelhos são um meio para os lobos agirem sobre eles mesmos. A dobra, que pode ser entendida pelos sufixos sinônimos plica ( do Lat. ant., sinal na música, indicativo de ornamento melódico; prega; dobra; plicatura. e plexo (do Lat. fig., encadeamento; entrelaçamento).Exemplos: com-plica, im-plica, du-plica, com-plexo, etc. Os desdobramentos são como a deslinearidade, mas podem desdobrar sob eles mesmos. Os sistemas COM-PLEXOS são capazes de se indeterminarem, pois se desdobrou sem previsão de voltar à origem (à parte, à parte alguma do todo), transformando-se em processo serial.

Sobre o processo serial o palestrante deu um exemplo do efeito borboleta, que pequenas causas em série, numa equação: repetição, reiteração, acumulação e amplificação resulta num efeito muito maior do que linearmente, ou seja, torna-se-á imprevisível.

O momento atual que vivemos é, seguindo estes conceitos, um momento de transição da civilização, e mais, afirma Oliveira, o dobramento da civilização humana é através da tecnociência. Pensando os possíveis destinos da civilização, que são de fato imprevisíveis (e nunca deixou de ser – nisso eu discordo do palestrante), se o acaso e o imprevisível são regra, se estabelece o caos. O caos é a possibilidade, é a confusão de todos os elementos do mundo antes de formar um mundo outro, é então a origem desordenada que poderá reconfigurar e mudar a civilização, ser outra coisa para continuar existindo. Podendo assim propagar a espécie, ou não. Nosso papel é como meio, não como fim – somos então os coelhos, não os lobos…