PARÁGRAFO FINAL

17 02 2010

Sinto falta do concreto, do reto e preciso; Daquilo que sabemos antes de questionar, tal qual uma ferida aberta com a ponta de uma faca: está ali tudo precisamente descrito, não há nenhuma dúvida de que a pele se feriu com a lâmina e não o contrário, e é descabido até pensar nisso. Mas a vida não é nem a pele, nem a faca, muito menos a ferida aberta. Ela é antes qualquer pensamento obtuso que sobrevier, um sentimento qualquer atribuído a tudo ou a nada e seu valor ou motivo, igualmente insignificantes, correspondem ao pensamento que pensa sentir, pois o sentimento em si, qualquer que seja, continuará abstrato e obscuro. Quanto mais quisermos nos aproximar de sua verdade, mais fundo iremos cravar a faca na pele, sem vermos a ferida, nem sentindo a dor. Os sentimentos pertencem à alma, cuja concretude só existe no plano do impensável, inaudito e invisível. E por isso retifico: não sinto falta do concreto, tal qual a ferida já aberta pela faca. O melhor, aliviando talvez minha angústia, seria estar presente com todo meu ser, no momento preciso em que a ponta da faca estivesse no limiar do dentro-e-fora, onde a máxima tensão dos tecidos estivesse a ponto de ceder e corromper-se, nesta lacuna do quase entre o sim e o não, quando a vida e a morte parecem unidas pelo vácuo de ação e não houver espaço para outras ambigüidades.

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