AmorRábico

27 07 2009

Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,
Jaz aos pés do tremendo, estígio nume,
O carrancudo, o rábido Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas.

Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males, de hórridas tristezas.

Pelas terríveis Fúrias instigado,
Lá sai do Inferno, e para mim se avança
O negro monstro, de áspides toucado.

Olhos em brasa de revés me lança;
Oh dor! Oh raiva! Oh morte!… Ei-lo a meu lado
Ferrando as garras na vipérea trança.

Bocage

Ela estava disposta a pôr tudo a perder, prestes a jogar no abismo da desconfiança sua última gota de certeza. Seus olhos gritavam, tinha um aspecto baço e todo azul se escondia na chama cinzenta de seus ciúmes. E bastava saber que ele a desejava, que só de vê-la o sangue esquentava, ao beijá-la já gemia? Não, sabia que qualquer mulher, vulgar que fosse, tinha capacidade para conseguir o gozo, mesmo que efêmero e logo desaparecesse qualquer vestígio de apetite para voltar a comê-la. Que adiantava ter provações de que ele a amava, demonstrando seu afeto que até mesmo desconhecidos não duvidavam de seus sentimentos? A ela nada importava se lhe dava flores, nem mesmo se comovia com a idéia da proposta de casamento, da relação sólida, dos planos de formar família. Ele teria capacidade de amar muitas outras pessoas, simultaneamente.

Não queria possuí-lo única e exclusivamente, não esperava dele mais do que respeito. Sua despretensão era tanta que não sentia apego, ficaria muito feliz se ele encontrasse outra que o completasse mais, com mais afinidades, com menos descompassos. Foi causalidade estarem juntos, nem sequer houve conquista, bastou se conhecerem e decidiram ficar juntos, irem levando. Nada foi oficializado, de repente perceberam que estavam mais de um ano juntos. Convenções. É verdade. Certas convenções preparam o solo, fundamentam ações posteriores. Bobagens! Ah sim, mas paira sempre a dúvida, isto é sério, é para valer, ou somos apenas um caso que deu certo? Não era esse o motivo. Não, não, o ciúme foi inoculado por algo muito mais peçonhento, recalcado e amalgamado, praticamente sem antídoto.

Sua personalidade serena, sua postura intrépida e seu sorriso sem intenções destoavam dos olhos marejados, da garganta entrecortada, do corpo retesado. Continha-se, sabia que esse sentimento era desmedido, e talvez infundado. Cada vez que reprimia seu afeto ou seu ciúme, maior ficava este último, tornava-se cada vez mais hostil, qualquer assunto era tratado impacientemente, com ares de deboche. Quanto mais controlada parecia, mais acometida e intolerante se tornava. Até que extrapolou seus próprios limites e amargou no próprio ciúme. A tolerância estava por um fio.

Sua paciência era descomunal, poderia amá-la mesmo que arrancasse os cabelos pela fúria, aturaria até cenas dramáticas em público com um leve sorriso, achando certa graça. Ele estava mergulhado nela, sentia-se vivo com as palpitações de seu coração descontrolado. É verdade, com alguma perversidade provocava situações, alfinetava aquele corpo, percebia sua pele enrubescer, sua concentração vacilar, seus olhos brilharem de ira e desconforto, sentia um prazer sádico de vê-la tentar se desvencilhar dos próprios sentimentos. Com o passar dos anos, sentiu-se desgraçado, concluiu que perdia o amor e detinha um acúmulo de mágoas, imbuído em descontentamento e decepção, na desrazão do sofrimento e da amargura.

Restava no fim um relacionamento mantido com elos de culpa e laços de conveniências. Não tinham construído nada em que pudessem agarrar e erguer como benefício, que tivessem orgulho. Olhava para ela ressentido de si, via-a como simulacro de suas ambições irrealizadas. Porém, ainda não era tudo só desesperança, debaixo dos escombros que se tornaram sobrevivia uma ternura que arfava. Fantasiava que essa exígua ternura, enfraquecida, arcaica, quase bestial pudesse edificar-se no amor incondicional, na fala doce, no olhar terno, no gesto comovido. Esperava ensinar o coração com o intelecto e esse foi seu maior engano.

Leu Werther, de Goethe, Machado da Assis, Balzac, Álvares de Azevedo, Vinicius de Moraes e tantos outros, queria transformar o tormento em intensidade, motivava-se com as narrativas a ser impulsivo, forçando entusiasmos, mascarando o cansaço e a debilidade. Não indagava a validade de seu esforço, lutava já vencido e ainda que vencesse estava derrotado. Duvidava que pudesse remediar, mas insistia em reagir.

A sua ingenuidade foi crer que podia substituir sua maior deficiência com o ciúme, este crescia dominando sua segurança e sua impavidez. Aquele ímpeto se descontrolou a ponto de não mais se estancar, deixando um rastro revolto. Ele se alastrou, tornou-a dúbia. Passiva de seu sentimento iludia-se com a idéia do relacionamento passional, que tudo devora (não tinha noção que ele também tudo destrói), com o qual a impetuosidade envolveria os dois.

Sua maior dificuldade era de exprimir seus sentimentos, por mais certos que fossem e quanto mais contidos ficavam mais cresciam, maior era o amor por ele. As proporções já não se continham consigo, encontrou nas crises de ciúme seu escape. Na crença de ter assim resolvido sua angústia deu a ele liberdade incondicional de se manifestar, não avaliava se era pertinente, se havia motivo, tudo por acreditar ser seu ciúme sinônimo do seu amor. Afinal, cometeu um erro banal de sintaxe, trocou os códigos.

Ele nunca a repreendeu, as discussões e brigas não tinham o ciúme como causa, pelo contrário, seus disparates eram recebidos por ele com sorrisos, como se desfrutasse de um gozo. Isso se tornou um ciclo vicioso onde um deliciava-se com a evasão do tormento do outro, até perderem-se no próprio turbilhão que engendraram. Ela estava desolada e ele, cego por um prazer perverso, notou seu engano quando tudo já estava arruinado.

Ela suportaria tudo, seu amor a tudo renunciava inclusive ao seu amor próprio. Sua natureza não era autodestrutiva, ela apenas tinha uma força imensa, qualquer dor indicava alguma forma de superação. Sentia-se desamparada, no abandono, onde apenas os monstros que criou faziam-lhe companhia. Ele estava cada vez mais distante. Estava cada vez menos interessado nela e nas suas alternâncias de humor. Não sorria mais, tornou-se menos afável, mais arredio. Tudo o que lhe interessava eram coisas que ela não podia oferecer. Indiretamente ele demonstrava, a cada interesse do seu desvio, o quão inútil eram seus esforços. De nada valia ser uma mulher inteligente, interessante, com a qual se deseja amanhecer todos os dias. A disputa era injusta.

Nem mesmo a maior de suas qualidades estava à altura. Pudesse ser apenas uma mulher comum, ignóbil com um belo par de seios ou uma bunda empinada. Não se importaria. Fosse uma paixão avassaladora, intensa e desestruturante. Sentiria até conforto. Até um homem em seu lugar via com certo alívio, ao menos era algo que não podia oferecer, mas não, aquele homem mantinha-se fielmente ao seu lado e ainda assim não podia ser concorrência mais desleal! Estava em pânico, não restava nenhuma saída, nenhuma medida de urgência, até mesmo suas súplicas eram inválidas.

Onde tudo é vão, o que resta é o nada, e onde de nada tudo vale, na desilusão infundada, num niilismo sem perspectivas, nenhuma ação desesperada tem medida. Sua cólera foi descarregada de uma só vez. Ou era isso ou o abismo. Abriu bruscamente a porta do quarto onde ele mantinha-se trancafiado a horas. Num descontrole histérico explodiu em um sem números de acusações, gritava esganiçado, chorava e cada palavra sofrida era dita entre os dentes cerrados. Ele não entendia uma só sílaba, prostrou a sua frente e deixou ser alvejado pela violência contida que por fim ebuliu. Ela fervia, espumava de ódio, ainda mais porque via que ele mantinha-se sereno, sabia que esperava aquilo tudo acabar e retomar tudo como se nada houvesse!

Foi a gota d’água. Não agüentava mais ouvir de Ursula, Carlota, Capitu, Maria Lúcia, Lucrécia, Ofélia, Catarina, Virgínia, Helena e tantas outras que nem mais sabia dizer seus nomes. Que ela podia frente àquelas deusas, imortalizadas, veneráveis que nem mesmo seus criadores puderam apagar? Como podia ela não se desesperar ao perceber que perdia o homem que amava para aquelas formas perfeitas? Ela era apenas um ser rude, tosco, sem a elegância e solidez que só os anos oferecem. Se o relacionamento acabasse naquele momento, ele a esqueceria em alguns meses. Mas elas, essas nunca! São inesquecíveis, são saborosas, não importa quantas vezes se repita.

E o que ela faria sem ele? Que seria de seu destino, se nem mesmo ele que a amava na sua pior forma, que conseguia ver beleza na sua personalidade bruta, que a desejava e a criou não considerasse tantos anos e tantas histórias, que seria dela afinal? Invejava aquelas outras, que não tiveram um homem fraco, covarde e desistente. Pois elas eram imortais pela perseverança deles, não havia dúvida! Nenhum sofrimento era maior que o tormento de pensar sua vida sem ele. Estaria fadada à inexistência.

Depois de muitos anos, depois da paixão na época da faculdade, dos momentos tempestuosos do início da vida adulta, após a grande frustração de sua vida, resolveu afinal, por fim àquela história toda. Ela á não lhe dizia nada, era vazia, desinteressante. Sentia-se ridículo na roda de amigos, para quê manter tanta lealdade à Loucura, por que ser fiel, deixar passar os melhores anos. Perdeu completamente o sentido, nem amor mais existia, nem ternura, tudo se resumia a desprezo e vergonha. Restou apenas no seu inconsciente a idéia romântica de sua história.





ESTATE

24 07 2009

Estate sei calda come i baci che ho perduto
sei piena di un amore che è passato
che il cuore mio vorrebbe cancellare

barquinhos

Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
che splendidi tramonti dipingeva
adesso brucia solo con furore

dasrosas

Tornerà un altro inverno
cadranno mille petali di rose
la neve coprirà tutte le cose
e forse un po’ di pace tornerà

Sampaio Moreira

Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore
l’estate che ha creato il nostro amore
per farmi poi morire di dolore

Fotos: Tania Knapp





SAUDADE – I

21 07 2009

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Natureza Morta

Prefiro, sempre dizer aos que amo que sinto falta, ao invés de dizer saudades. Saudade me pesa, me é indigesta. Disse minha vó, num gesto espontâneo associativo, que saudade é solidão. Sente saudade, por se sentir só, porque só o que passou preenche o vazio do agora. É fazer da lembrança alimento do porvir.

Aceitei o convite do futuro, tratei das feridas passadas e presentes e isto não foi um alívio, não diluiu o bloco denso, é que velar não significa esquecer, enterrar não implica em apagar.

Verdade seja dita, não sinto saudades, que entendo ser uma nostalgia, com melancolia e descrença. O que sinto é motivação, esperança! Não, não pode ser saudades. É um sentir falta, saber que passou, manter na memória a sensação, a vivência.

Não desejo saudade, nem mesmo as lembranças que ela contém, ficou um gosto de doce, que só a vó fazia. O doce só tem gosto especial pela memória construída, se comer de novo, perde a graça. Sigo sentindo falta do doce presente, recupero logo o apetite.





Ständig kurz

19 07 2009

Escher_moebiusband

Schade, es war zu kurz!

seufend voller Glück… und ganz leicht wie Luft!

so glücklich, wenn ich dich seh’

ständig wächst

der Wunsch

die Lust

das Gefühl

die Ruhe

sie ist nicht fade, nein!

entdeckt es jenseits

der Intensität, der Leidenschaft

atmen ohne Bemühung

lächeln gerne

kurz aber docht nicht bald

schön leicht knapp

ständig

Wäre noch dauerhaft!

Versão alemã, de “Breve contínuo” ambos de minha autoria. Ambos dedicados a leveza e tranquilidade dos tempos breves… Agora com trilha sonora!





Climatério

16 07 2009

klimt-gustav-lebensbaum

Não sou mais outono

com o vento o tempo

me deixou

leve – levou

Não abrigo mais inverno

da noite que passou

do beijo marcado

da volúpia estúpida

não me esfriam – acabou, acabou!

A intensidade

curo com gesto terno

Nenhum sentimento primaveril

desabrocha mais

ficou depois de histérico

estéril

Não confio mais em seu chão pueril

sem cultura fértil

Aquele verão que fui

que voraz escaldou

a nós dois

eu e os cacos – aqueles que podiam ser você

Aquela sofreguidão

que se fez invólucro

enodou

Este quiste durou

verão

outono

inverno

Desembaraço feito

na aurora do tempo

Sorrio, enfim estio.





Gentilezas

6 07 2009

Esclerosada, 94, em estágio avançado de Alzheimer pede a sua acompanhante:

– Liga para minha mãe, quero falar com minha mãe!

Com um sorriso largo e franco e moça toca seu ombro gentilmente, pega o telefone, digita o número. Alguns segundos depois diz naturalmente:

– Está dando ocupado Dona B…

– Ninguém atende é?

Balança a cabeça respondendo, desliga o telefone. Aponta para cima e diz:

– Ninguém atende.





Para quê tudo isso?

3 07 2009

Que tenho eu vontade?

Que pode operar sobre mim senão meus anseios?

Que desejo eu que não deseja senão você?!

Que desejamos nós que não fosse ter, ser e dar?

Para que tudo isso?

Para arfirmar que sou

Para impor minha vontade

sobretudo, sobre mim mesmo

Para refletir meu desejo

de ser inexorável

de ter individualidade

de dar sentido

Com que razão?

Que importa meus motivos?

O que garante que meus fundamentos sejam infundáveis?

O que importa mesmo é o que EU desejo.

Não importa o que

nem como.

É vazio. Sem conteúdo, é apenas continente.

Continente do que sou na vastidão do ser que nada tem e tudo quer.

Vontade é minha razão de ser.

E só por isso persisto existir.