INVERNO

22 06 2009

DISTÂNCIA

ENTERRAR OS MORTOS

Irresoluta manteve-se serena, apesar de sentir um grande abismo cindindo seu peito. Ele se aproximou e lhe disse que era hora de decidirem, com os olhos ternos esperou por uma resposta. Ela suspirou, lhe faltou a voz, abraçou-o longamente e aquilo significou um sim. Isto não aliviou aquele sentimento estranho que cada vez mais tomava sua consciência. Aquele momento deveria representar a felicidade plena, a segurança de estar entre os braços de quem amava, havia ali todos os elementos necessários para nisso apostar, todavia sentia se afastar de si incontrolável e fora de seu alcance, como se ela não pudesse participar dela mesma.

Teve vontade de rir, em seu descontrole sobreveio ao invés disso apenas lágrimas, e quanto mais se esforçava para estar presente em sua vida, mais se distanciava dela. Tornou-se sua própria desconhecida e então constatou ser esta a mulher daquele outro, do homem que perdera. Esta era ela, perante a imagem que aquele lhe fez, a representação que se esforçou para sê-la. Apenas uma idéia que depois de mitigada, quando todo o furor e ímpeto se abrandaram, recalcou em sombra. Ainda que tenha aceitado, submissa, se afastar, recomeçar nova vida, aquele homem que por medo dispensou, acovardada de ser ela o que sempre foi, permaneceu retalhado em minúsculos pedaços, diluídos em qualquer coisa alimentando-a do desejo de ainda ser, com ele estar.

E aquilo fazia sentido? Não, ela sabia, mesmo deixando se enganar pela fantasia de reencontrá-lo, como não tinha cabimento tudo aquilo. Tinha certeza de estar tudo acabado, podendo aquele homem aparecer e nada sentir, que não fosse ressentimento, dor e desamparo. No entanto, em sua lembrança aqueles retalhos que cultivava na memória davam-lhe a idéia de ainda tê-lo consigo, de ainda compartilhar. Não conseguia desconstruir a imagem que fez e pela qual o admirava, não sentia senão culpa de tê-lo perdido, não restava senão medo que aquele sentimento nunca mais lhe arrebatar, jamais se repetir. Percebeu então que era este o motivo que a mantinha inerte, por isso retinha o fantasma em sua memória, que a impedia de seguir adiante.

Ter esta consciência dificultou ainda mais viver contente. Vivia com outro, com o qual não podia estar integralmente, pois parte de si continuava em poder de um ser inexistente, alguém desintegrado, dissolvido em lembranças. E ela mesma via se desmanchar, perder-se. Sua vida era um amar em luto; com ordem invertida pois não o havia enterrado. O falaz defunto fazia-se mais presente que o abrigo dos braços do outro. Deitada na cama sentia esvaziar-se enquanto ele abraçava-lhe, a cada vão prazer outra parte sua despregava-se do seu ser. Tornava-se mais e mais parco corpo de sentimentos vivos e mente farta de lembranças mortas!

Deteve-se. Anestesiou seus pensamentos. Soltou-se de seu amável abraço. Sorriu e este entendeu serem seus esforços para ela insuficientes, e ela de olhos serenos, acariciou suavemente seus cabelos, recostou-se sobre seu peito, arfou distante. Sentiu o passado presente calcificado em seu corpo e impregnado em sua alma, e o presente que vivia era imemorial, baço e vazio. Desfaleceu deste infortúnio, não encontrava sequer ódio para recobrar suas forças. Sentiu-se abraçada, envolta no ar cálido e pungente, permitiu que o abraço invisível lhe tocasse, e o tato lúgubre a enterrou. Então fez-se inverno, expirou.

Aqui finda a triologia narrativa de uma mesma história protagonizada três vezes de maneira diferente, a segunda parte https://linha10.wordpress.com/2009/05/25/competir-no-espelho/ e a origem de todas elas está a “tatear o ar” em outro blog.





Encanações femininas…

16 06 2009

CICLO DIETÉTICO

Eu sou Fome

Ninguém me come

para o café tem

nada, sem

gosto, sem leite

sem pão, sem azeite

No almoço é bem melhor

assa no forno o nó

que dá na barriga

e o dia é de grande fadiga

Eu sou Fome

Ninguém me come

Depois de uma semana

Estou forte e enorme

Ninguém agora dorme

Me dão atenção sobrehumana

A manhã começa com

desespero por alimento

e termina com fé que o sofrimento

vá embora. Como seria bom!

Eu sou Fome

Ninguém me come

E é assim que eu quero

Assim sou feliz

Pois se me comem, sou mero

passado. Morro antes que eu solicite

Me mata o aprendiz

Ele é esperto, esse Apetite

Aprende rápido, na vula!

Logo será promovido à Gula!

Eu sou Gula

Ninguém me segura

Sou incontrolável

Sou prazerosa

mas cuidado! Tenho uma amiga venenosa

chega sempre atrasada, indomável

A Culpa vem sem convite

acaba de vez com o esforço

determina estado de sítio (no fundo do poço)

Exila o culpado e torturado Apetite

Eu sou Fome

Ninguém me come…





DAS ENTRANHAS

5 06 2009

SOU TÃO VISCERAL, QUE ATÉ COM OS VERMES ME DIVIRTO!

E A MINHA VERVE COM OS VERMES SE DELICIA…

E DEPOIS DO DEVANEIO

A VENTANIA

TUDO DEVORADO

NO VÁCUO DE VIDA