COMPETIR NO ESPELHO

25 05 2009

narciso-caravaggio

Como pôde ser tão estúpido? Estava evidente que ela ainda não o esquecera! Ele o substituiu, é verdade, mas aquele outro, aquele fantasma ainda exercia poder sobre ela, continuava a tomar-lhe sua preciosa presença, e esta tornava-se imaterial, volátil. Estava tão inseguro que duvidava até de seu sorriso franco, pensava que aquele sorriso maravilhoso, mesmo postado à sua frente remetia ao outro, que aqueles belos dentes brilhavam de ver, mesmo que na memória, outro alguém. Como sucessor, apesar de ela parecer feliz ao seu lado, via aquilo como uma enorme desvantagem, sua referência era o outro. Ah! Como desejava ter sido primeiro, mesmo que isso significasse não estar mais ao seu lado, ao menos seria poupado dessa angústia de ser preenchedor de seu vazio. Que terror sentia só de pensar que seu abraço, esforçado para ser terno, envolvente, especial e que lhe transmitisse segurança, estava fadado ao fracasso pois não precedeu aquele abraço, que o outro pôde dar quando ela precisou, quando pediu, quando chorou, ou quis comemorar, ou para consolar.

Não é possível estar plenamente feliz tendo como parâmetro algo que já não mais se tem, que se perdeu, que não existe mais. Aí constatou uma dúvida esmagadora: não estaria ele mesmo usando o outro como parâmetro? Seria possível ser sua insegurança tamanha, a ponto de espelhar-se no homem que perdera a mulher com a qual estava? Foi tomado pelo temor de perdê-la, de que seu empenho em ser melhor que o outro tornava-o menos que si mesmo, o transformando em metahomem, numa citação. Percebeu que concentrar-se em apenas acertar não o preservava dos erros, estar obstinado em ser bom companheiro não garantia uma boa companhia, preocupar-se apenas em não falhar, o impedia de compartilhar as dores e os tropeços com ela. Na verdade, o perfeccionismo só funciona para narcisistas, porque alimenta o ego, e seu ego tinha fome de satisfazê-la, de vê-la realizada. Entretanto, sua única satisfação seria ser o único, sem precedentes, sem sucessores, realizar-se significava perder a memória e impedir as expectativas e para isso ele não poderia mais ser uma breve e superficial associação do outro!

Estava resoluto de que deveria desintegrar um homem que nunca conheceu, seu rival, seu espelho que contraditoriamente era em quem se apoiava quando não a compreendia, quando se via impotente diante de seus olhos úmidos e vermelhos. Seu inimigo também dava-lhe abrigo, pois tinham algo em comum, algo os ligava, compartilhavam de algo forte e determinante, amavam a mesma mulher. Destruir sua lembrança era matar um pouco de si, e diante dessa fraqueza, desejava sua morte, que em seu enterro estivesse presente e pudesse consolar sua mulher da viuvez e do luto, estando por fim livre desse infortúnio. Mas de fato sabia que enterrar o homem não aliviaria o desconforto de tê-lo como predecessor, pelo contrário, ela provavelmente o teria como imagem intocada, uma lembrança idealizada da realidade. O jeito era conformar-se de que houve um outro, de que este também gozava da mesma vivência que tivera.

Pois sim, foi estúpido! Ela não o esquecera e, no entanto, terminava por escolher ele como companheiro e não o outro, estava tão cego com seu ciúmes, tão inseguro que não percebeu o que significava ela ter deixado o outro para viver com ele. E na sua ignorância, ele mesmo forjara um espaço vazio na cama. Cada vez que ele a abraçava ingenuamente entregava-a para o outro. Ele se postou atrás deste espelho e todos seus esforços não se transpareciam, eram apenas reflexos, sem um significado real por si só, dependiam de um dado comparativo e só existiam como reação. Por nenhum momento gozou de sua companheira, esta representou o simulacro de seus desejos, de uma mulher que nem sequer existiu.





Um não-lugar chamado Cidade

21 05 2009

O texto que segue se refere ao texto do italiano Giuseppe Dematteis, “A decomposição metropolitana”

Giuseppe Dematteis inicia seu questionamento a cerca da definição de cidade, como citado por Max Weber um assentamento aglomerado circunscrito, para Dematteis esta definição se inicia tardiamente, na alta idade média, quando a necessidade de aglomeração faz-se necessária para o desenvolvimento mercantil burguês, que culminará nas revolução do século XVIII, isto porque a cidade torna-se símbolo e representa a força capital, econômica e política das nações ocidentais desenvolvidas. Interessa para Dematteis porém, os precedentes desta definição e identificação. O autor afirma que há um cruzamento semântico na definição do termo cidade, ao mesmo tempo que se entende como forma física, contém ou abarca fenômenos provenientes do social. A cidade portanto (onde se interpola civitas e urbs – que denominam respectivamente social e físico) está além de uma identificação espacial pois incorpora significados sociais. A origem do fenômeno urbano moderno advém da Idade Média, onde a idéia de centro urbano nada representava, não se reconhecia sob uma identificação geográfica, muito menos encontrava rebatimento físico como um assentamento aglomerado circunscrito, ao contrário, a consciência urbana se encontrava esparsa por um território, presente apenas como propriedade e marcado aqui e ali por construções isoladas, a definição de cidade moderna, na origem, não considera a forma física, pois esta pouco contribuía na sua identificação.

A interpolação semântica, que antes legitimou e fundamentou os centros urbanos e a concentração de bens, pessoas, capital, etc, começa a se desfazer, Dematteis explana o processo de rompimento desta sincronia físico-social. Em linhas gerais, ocorre que o desenvolvimento de produção capitalista não depende mais da cidade enquanto suporte físico como ocorrera até o século XIX – XX, nas últimas décadas do século passado se observa uma mudança de estratégia econômica e produtiva, a produção industrial, antes aglomerada – o que refletia numa identificação física para a sociedade da região ocupada – começa a dissipar-se, se redistribui, inicialmente conformadas e entendidas como expansão, compreendendo as megalópoles, os conurbados urbanos, as regiões metropolitanas, etc. Este salto de escala na organização espacial traz uma primeira defasagem efetiva entre os diversos âmbitos espaciais do urbano.

Outras mudanças tecnológicas, da informática, dos sistemas financeiros, que se sobrepõem à indústria, da mídia e das telecomunicações, desprendem ainda mais a cidade – parte dela, ao menos, representada pelo sistema econômico capitalista e as relações sociais dele proveniente – de sua fundação física propriamente. As relações que se dão são de ordem majoritariamente planetárias, as produções não seguem a lógica da proximidade territorial (isso porque o transporte, de maneira geral, não corresponde mais a um fator restritivo da produção e consumo), sua lógica é virtual e sua estratégia se afasta do conceito de centro e periferia e se organiza por meio de redes e nós. A denominação de rede é melhor entendida se no plural, pois um único nó-cidade está passível de uma infinidade de redes de relações: econômicas, culturais, políticas, sociais, étnicas, etc. Restando apenas fragmentos de sua forma física.

As redes, seguem fluxos de centros mundiais, cada pólo, nó especializado, como os centros financeiros, cuja localização encontra-se esparsa , assim como os centros de produção de bens de consumo, de nichos de mercado consumidor, em suma, o território urbano capitalista é imaterial. Que resta à cidade, qual sua função enquanto vivência e relação urbana? A cidade contemporânea se desintegra na medida em que as relações humanas, sociais e econômicas não se dá concretamente possibilitada pela tecnologia das telecomunicações, do mundo virtual, telemático e mediático. A cidade então é um não-lugar, destituído de conteúdo, vazio de seu sentido, esquizóide no comportamento social, fraco na sua forma e estrutura, se decompõe, pois já morreu.





Sem assunto

20 05 2009

Diaxo! Sentir o vácuo entre a urgência para se expressar e a estupidez de um assunto vazio impede a fluidez, a naturalidade, o contínuo desdobrar dos pensamentos. Falta ócio, falta abertura, existe uma carência absoluta de tranqüilidade para simplesmente ser, estar – Dasein.

Apontar o dedo para o ar e isso não significar absoluamente nada, isso sim é liberdade!

Freiheit! So was für ein herrliches und unfassbares Gefühl! Wenn sie erwünscht ist, ist sie gespürt.