AMOR NATURAL

30 04 2009

Monte menino, que queres tu do Vale menina?

Vale menina, por que desejas a Cordilheira Andina?

Monte menino, que queres tu da vida?

Monte menino, qual é teu futuro?

Nada adianta; acreditar na palavra iludida

do Vale menina, que por tu tem amor puro

Vale menina, que sonhas para ti?

Coisas boas já sei, não sei se desejas partir.

Visitar ídolos, em todo o mundo

Ficarias sem palavras ao lado de Everest

Menosprezarias o Monte menino, achando-o vagabundo

Pobre Monte menino, abandonado por um grandioso do leste!

Vale menina não se satisfez,

Depois de Fuji, encostou-se com todos de cada vez

O prazer durou pouco, lamentou-se

Jurou tomar jeito, voltar para o Monte

Sem dúvida não imaginava – Este ausentou-se

Pensou que estivesse a aguardado; mas foi-se

Pena Vale menina! Ele está com a Fonte.

Vale menina chorou lágrimas cristalinas

descrente do amor puro, sentiu-se pequenina

chata e deserta, sem vegetação e vida

Monte menino muito feliz sedimentava o coração

de tão alto e rico o teor do seu amor de jazida

Até que a Fonte lhe trouxe o mal da exploração

Monte menino depenado

Vale menina deflorada

Odiavam-se e desejavam

Com muito rancor; na depressão

que o outro caísse. Os dois porém, choravam

sofriam com a sequidez e os efeitos da erosão

A amargura os dois corroeu

não se sabe qual deles mais sofreu

Nessa história não há final feliz

muito menos uma lição de moral

aqui, o resultado o próprio leitor diz:

se o desgosto está ligado ao amor, este é um mal.





A DANÇA DO MAIS FORTE

17 04 2009

cartaz

Fotos divulgação – http://www.dancacontemporanea.com.br

Assisti na semana passada o espetáculo de dança “O animal mais forte do mundo” criação e pesquisa dos dançarinos Ana Catarina Vieira e Angelo Madureira. Se não foi com espanto que vi a dupla, agora acompanhada de outros quatro dançarinos, foi porque estou acostumada a me deixar surpreender por esses dois corpos dançantes que exploram a estética não tão apenas do corpo, enquanto matéria e sentidos, mas como do corpo – corpo, corpo – vazio, corpo – espaço, corpo – alma. A estética é de um conjunto, de pesquisa da dança popular brasileira, que remete à cultura, do trabalho cenográfico e quase teatral da dança (isso foi evidenciado pela primeira parte da triologia “O nome científico da formiga”), do questionamento do artista, da presença da música. O resultado, em síntese, é uma movimentação que se baseia nas danças populares brasileiras somada a um trabalho autoral de dança contemporânea.

caindo

Descobri a dança com esta dupla, percebi que o corpo vai além de sua extensão, e na dança isso se torna evidente, não é só o pé que gira, ou a mão que espalma e fausteia, nem os braços que enlaçam, cruzam ou expandem abertos. A dança é um pulsar individual, intra-corporal que de repente explode! Já ouvi uma vez que a definição de dança é o equilíbrio em desequilíbrio, e isto Ana Catarina e Angelo fazem com maestria. Quer desequilíbrio mais belo que o frevo? O cai-não-cai-caindo-não cai. Agora imagine explorar o frevo, o cavalinho e outras tantas danças variadas em movimentações, com suas histórias e raízes, num ultra-contexto, ou seja, um contexto que está além dessas raízes, pois estão reinterpretadas, porém não se descolam, não abandonam a tradição popular.

forca-homens

tensao

O espetáculo que vi, diante dessa breve apresentação um tanto pobre comparado ao trabalho deles, é de uma força e intensidade tremendas, impossível sair da apresentação da mesma maneira em que se entrou. Há uma narrativa não linear em que os corpos costuram uma trama. Eles  empurram enlaçando-se, carregam rastejando, levitam pesados e unem-se solenes. A violência é perceptível em grande parte da apresentação, bem como o sofrimento, também o esforço de sobreviver, a competição, o duelo e a guerra. A dança é forte e os movimentos controlados. O ritmo alterna do absoluto silêncio tensionado até um pulsante frenesi do chão ao ar. O ápice vem com composições quase pictóricas de planos sobrepostos, corpos confundidos e enquadramento em desequilíbrio.

ana-catarina

empurra-pula

puxa

pula-cai

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composicao

Não adinta tentar traduzir a dança em palavras! Desisto. Mas insisto e sugiro que aproveite o espetáculo, amanhã e depois na Galeria Olido, no centro, ou semana que vem no Espaço Crisantempo, na vila Madalena.

FICHA TÉCNICA

Criação, pesquisa de linguagem e coreografia
Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira

Direção
Fernando Faro

Direção de ensaios e preparação corporal
Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira

Direção técnica
Juliana Augusta Vieira

Iluminação cenográfica e figurinos
Juliana Augusta Vieira

Assistente de ensaios
Karime Nivoloni

Elenco
Ana Catarina Vieira, Ângelo Madureira, Ana Noronha, Carolina Coelho, Eduardo Fukushima, Karime Nivoloni, Luiz Anastácio.

Edição e gravação da trilha sonora
Ângelo Madureira

Sonorização
Fabio Luchs

Pintura nos figurinos
Fabiana Fukui e Juliana Augusta Vieira

Técnico de luz e som
José Alves da Horta

Técnico de luz
Marcos Santos

Serviços Gerais
Neu Fenelon

Secretaria
Mônica Garcia

Fisioterapeuta
Maria Vargas Lustig

Assessoria de Comunicação
Acacio Morais`d

Assessoria Internacional:
Gabriela Gonçalves

Projeto gráfico e diagramação
Gilda Lima

Foto
Heudes Regis

Cabelo – Allure Hair
Marcos Yamazato

Administração
Juliana Augusta Vieira

Produção Executiva
Iara Maria Vieira

Direção Geral
Ana Catarina Vieira

Agradecemos a todos os nossos parceiros e apoiadores, e aos amigos de sempre.





Perda

15 04 2009

Perdi minha pen-drive. Assunto besta, mas tudo o que tinha naquele mísero objeto de 1 GB (sim, não disponho de grandes aparatos tecnológicos), era um incalculável número de lembranças, que apaguei da minha memória, contava poder acessá-las sempre que quisesse, quando viesse repentina uma saudade, uma nostalgia. Agora me foi extirpada essa possibilidade, não possuo estas lembranças, são intangíveis.

Perder sem poder escolher o que se quer perder dá uma agonia tremenda. Um sentimento de impotência, uma violência, arrebata os pensamentos, que cegos tateiam o nada, não se tem mais o que se procura, e o que resta é desolador. Por fim acomete a idéia, o que será que fazem das lembranças que perdi? Me sinto aviltada, invadida. Pior: nem sei bem por quem e por quê. Um devaneio tolo pousa em mim e diz que perder a pen é um sinal, um bom sinal de que as lembranças retornarão!

Espero, medito, reflito, enxoto qualquer pensamento que tome o lugar vago e vazio deixado pelas lembranças que não tenho mais. Elas virão. Sei que virão, pois, para onde iriam, quem mais as acolheria, que lugar poderia existir para elas senão minha memória? Mas vacilo, a dúvida então cresce em mim, desarruma o espaço livre que havia preparado, e ela infla, infla e infla e ocupa todo meu ser.

Embotada, cheia de dúvidas, imagino se as lembranças eram apenas elementos fantasiosos, que de fato não existiram, por isso não as tenho e portanto não perdi nada. Como poderia sentir falta daquilo que não tive? Como posso sofrer da perda de algo que não existe? Seria possível?! Confusa, busco em fotografias, em textos, em diários, qualquer resquício, por pior que fosse, por mais banal que parecesse, mas que comprovasse a perda.

O esforço foi tamanho, que lá, na gaveta dos guardados, no fundo empoeirado encontrei algo. Era um botão branco com o relevo preto, ainda tinha linha de costura com um chumaço de pó presa nela. Um botão. Troca justa: uma pen-drive por um botão. Mas não era um simples botão. Aquele botão fazia parte de uma coleção, uma porção deles, dos mais variados tamanhos, formatos, materiais e cores.

Aquele era o botão número um, o primeiro da coleção, cada botão representava uma lembrança, se associava ao momento por sua cor, à importância pelo seu tamanho e as formas e os materiais davam caráter exclusivo, era um diferencial de cada lembrança. Depois daquele botão muitos outros vieram, e a coleção crescia e com ela caía no esquecimento que um dia eu perdera minhas lembranças.





INEXISTÊNCIA

6 04 2009

galaxiam104

Sem você a vida não é mais triste

Sem você a vida ainda existe

Mas sem você…

O trabaho é o mesmo

as horas ficam a esmo

Nada muda sem você

A desimportância que é

para o mundo e para a vida

que não percebem

sua ausência, sua ida

contudo sem você…

com tudo, mas sem você

A sua presença, o seu cheiro

as suas palavras, a sua voz

Nada disso tenho (a) mais

E sem você, companheiro

a vida, imperceptivelmente tem um pós

que não é traumático, mas alguma falta faz

Jamais! Jamais, com você a vida

seria a mesma

jamais as horas passariam desapercebidas

Nada, e ninguém seria como um dia fôra

Tudo teria uma nova existência, um novo significado

Se, e somente se, você existisse.





1º de abril, 1ª verdade

1 04 2009

SAMBA DO GRANDE AMOR (Chico Buarque)

Tinha cá pra mim

Que agora sim

Eu vivia enfim o grande amor

Mentira

Me atirei assim

De trampolim

Fui até o fim um amador

Passava um verão

A água e pão

Dava o meu quinhão pro grande amor

Mentira

Eu botava a mão

No fogo então

Com meu coração de fiador

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito

Exijo respeito, não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor

Mentira

Fui muito fiel

Comprei anel

Botei no papel o grande amor

Mentira

Reservei hotel

Sarapatel

E lua-de-mel em Salvador

Fui rezar na Sé

Pra São José

Que eu levava fé no grande amor

Mentira

Fiz promessa até

Pra Oxumaré

De subir a pé o Redentor

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito

Exijo respeito, não sou mais um sonhador

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor

Mentira

A grande mentira é não ser verdadeiro consigo mesmo, mentir para si é turvar a verdade. Mas enfim, o que é afinal verdadeiro, para quem, o quê? Vou ser genérica e usar o jargão genérico que tudo na vida é relativo, antes disso, antecede a relatividade a verdade, e esta é tão subjetiva e imaterial quanto a idéia de tudo ser relativo… O homem é um construtor, são castelinhos infantis tão frágeis quanto belos. A construção da verdade é mais um desses castelinhos, construído e reconstruído várias vezes por cima do existente, usando as mesmas peças para outro fim, com uma função que talvez  originalmente não foi pensada. Então, se é construção contínua e por isso dinâmica e variável, como ter certeza do que é verdade ou não?

A verdade antes de tudo é subjetiva, e se uma coisa é verdade para o sujeito, se ela é percebida verdadeiramente, ela existe e é verdade. Vão logo me questionar que assim qualquer mentira ganha os louros sem qualquer risco de descoberta de fraude, se baseando na premissa que foi verdade para algum sujeito. Mas todas as verdades são originárias de uma única matriz, um fundamento sólido, um elemento que compõe todos os outros nessa construção. A primeira verdade-modelo é a verdade relativa à própria existência do sujeito enquanto pensamento.

Existir é verdadeiro, o que se pensa nesta existência ainda que subjetiva traz à realidade existências verdadeiras. E as verdades antagônicas coexistem tanto no sujeito quanto na realidade. A mentira surge não da verdade pura, mas de um ideal subjetivo irreal, incompatível com a existência, que quase poderia se dizer como uma verdade anacrônica. Mentir é encobrir o descompasso temporal do sujeito e sua verdadeira existência.

E o que o grande amor tem com todo esse papo pseudo-filosófico? O grande amor só pode ser vedadeiro, se percebido a tempo, na realidade do sujeito que o vive, que percebe sua existência. Então, se você tem um grande amor, não mude de calçada, não endureça o coração, não vacine-se contra o verdadeiro amor. Isso sim é uma grande mentira.