Tempo p(á)ra poesia

30 03 2009

moderntimes

EXÍLIO NO TEMPO

Presa nas engrenagens

do meu próprio invento

tudo paíra suspenso

a duração de um se – gun – do len – to

os ponteiros, as ferragens

não indicam, nem marcam momentos

horas duram menos que um instante

estou entre um piscar de olhos

e um boceeeeeejo entediante

À esta máquina

que me devora até a espinha

ligada

e ela me diz sarcástica

definha!

Como prisioneira suplico

Não! Não, antes um castigo!

Ainda quero sentir, que seja dor

que continue comigo.

Por condolência

ou sadismo

minha pena concedeu

a tortura duraria o tempo de vida

num exilío em mim, no eu

Exilada no tempo

não importa se séculos

se segundos

se passo com ele

nem percebo diferença

sua impressão decodificada

recriando um novo mundo

onde não há ordem

nem linearidade

não acompanha o destino

nega origem e finalidade

desperdiça tudo em desatinos

Permanência do tempo oco

destituído de sentido

dormente, num estado-louco

com velocidade latente pulsando contido

tempo ocioso

desenfreado

sem marcação sem horário

seu tic-tac silencioso

Solitária

neste exílio

num século

ínfimo

percebo que o tempo

é meu domínio

Que me diz? Estou contente!

e num minuto

o tempo é meu amante

está preso à mim sem corrente

um elo de segundos foi o bastante





EGO-AGÔ

25 03 2009

FERI TEU EGO

AQUECI TUA DOR

RENEGO

NÃO NEGO, MEU AMOR

DESASSOSSEGO

DESESPERO

RANCOR

O AMOR NÃO É CEGO

SÓ É ESTÚPIDO

SEU LOUVOR





ME LIQUEFAZER

23 03 2009

vapor_cinza

 

Apago todas as luzes e me fecho na varanda. É o princípio da noite cálida, pouco antes da chuva. Uma mulher com guarda-chuva verde, calças pretas e sandálias brancas atravessa a rua apressada. Sento-me na cadeira, me envergonho pela decisão e acho graça ver a mulher voltar com o guarda-chuva fechado e atravessar mais vagarosa, agora que a chuva já cai cadenciada. O movimento na rua é grande, a maioria das pessoas, como a mulher de sandálias brancas, segue na chuva sem grande desespero, sem protejer-se, como se aquela chuva não fosse real. A noite lembra o clima de praia, com a típica chuva que borrifa frescor, mas não molha.

Nunca duvidei do poder de sociabilização da cerveja, do café e do cigarro, como também nunca senti falta usar desses artifícios para tornar-me mais sociável. Para provar isto, acendo meu primeiro cigarro solitária, no anonimato urbano. No primeiro trago já sinto uma ponta de arrependimento, mas é na outra ponta deste pequeno cilindro que toda a minha ansiedade se consome. A noite envolve a brasa, esta fonte de luz rarefeita onde deposito minhas esperanças.

De forma instantânea, os músculos relaxam gradualmente, um a um, com um leve formigamento. O relaxamento é tanto, que tudo se esvai na noite morna e na chuva fresca, como que evaporado antes de chegar ao chão, tenho uma leve tontura e sinto minha cabeça pendendo pesada com o cérebro liquefeito. Aos poucos fico entorpecida, o organismo denuncia a intoxicação da nicotina, ao mesmo tempo que está ávido por ver a brasa reluzir, se extinguindo a cada próximo trago. Vem súbito o desejo por mais um, antes que o primeiro se acabe, num arremedo compulsório, emendando desejos e frustrações, vícios e medos, dissoluções e impulsos.

Embora o organismo e a psíque execrem a necessidade de fumar, o cigarro estabelece íntima relação com o meu eu tão só aliviado por sua existência e companhia efêmera e perecível. O hábito vem quase sem querer, e constato já ter fumado sem perceber mais de meio maço! Estou imbuída de sensações contraditórias, de sentimentos complementares e antitéticos, como acredito estrarmos sempre, personificados na mulher que vi ir e vir de sandálias brancas. Esse conjunto incoerente é velado pelo cigarro e está depositado em cada bituca que despejo no cinzeiro.

Percebo os efeitos colaterais, não nasci para ser fumante, há um embate fisiológico entre a repulsa pelo cigarro e um desejo, uma atração pelo momento de estar apenas comigo. O cigarro é o veículo que possibilita a pausa, um instante de ócio no meio do turbilhão, em que o entrar e sair da fumaça produz maior contato entre o corpo e a existência etérea.

A respiração é orquestrada pelo pulsar da brasa que a cada novo trago se aproxima, aquece e reconforta, e isto indica também sua extinção. A inspiração é um espasmo, um momento sincopado pela fumaça e todos os males, de dentro do cigarro e do interior da mente e da alma adentrando no meu corpo, enquanto a expiração é o alívio, o momento de desabafo pela baforada que dilui a tensão e externaliza a angústia

O calor aproxima-se dos dedos, numa carícia provocante e perigosa. Com uma gana infantil termino em poucos minutos, o que poderia levar uma eternidade. A luz amarela da rua tinge a água da garoa de dourado, estou toda do avesso e para fora. O amargor da garganta adocica a boca ressequida, uma sensação torpe e idiota me invade e sinto que me liquefiz em cinzas.





DE MUDANÇA

22 03 2009

 

 

mudo-me

aqui nessas caixas estou em parte

            livros de arquitetura

            de arte

            de literatura

 

mudo-me

sou tudo que tenho, verdade

encaixotei as lembranças

embrulhei minha cidade

me levaria toda como herança!

 

mudo-me

e os restos vão-se com a idade

tudo que fui, fica

me despego da vaidade

que me importa se fui rica?

 

mudo-me

guardo fotos antigas

            dos lugares

            das amigas

            dos amores

 

mudo-me

livre vôo como as aves

sem passado não estou morta

vívida cintilo; entrego as chaves           

sem pensar, nem atino ao fechar a porta

 

mudo-me

carregada pela euforia

do que ainda sou capaz

que vontade me daria

de ir sem olhar para trás





MARIA EUGÊNIA – EMANCIPAÇÃO

20 03 2009

mc2aaeugenia-toda





LINHA 10 CONGESTIONADA

18 03 2009

Quanta tensão! Existe uma infinidade de fatores e motivos provocando isso. Há um número incontável de responsabilidades e compromissos preocupantes e mais um sem-número multiplicado à isso de coisas em aberto, indefinidas e incontroláveis consumindo e consumindo. A prescrição médica indica: repouso absoluto; sossega-leão de duas em duas horas. Quantas palpitações! Quanta desritmia, quanto descontrole! Pergunte ao criador onde fica o botão de desliga. Erro de fabricação, se desligar a coisa desanda, na verdade não anda mais, deixa de funcionar. E nem assistência técnica tem, essa é a desvantagem dos produtos importados sem certificado de procedência nem garantia de origem. Paciência, o jeito é recauchutar os estragos com as gambiarras locais mesmo.

Uma delas é a dispersão. Alguns descolam um tal de “foda-se” que por tempo indeterminado, dependendo do modelo, com efeitos colaterais diversos e adversos, sem muita garantia de qualidade e validade, dá conta de entreter, abstrair, dissipar, esquecer ou até mesmo perder um número x de códigos e informações. Há vários modelos no mercado que mais ou menos correspondem às tendências do consumo geral. Tem também um experimento novo, ainda sem muita adesão, que consiste num tratamento mais a longo prazo, promete ser mais saudável e eficiente, mas não há dados dos resultados reais e efetivos. A teoria é que mente e corpo devem funcionar em equilíbrio, num trabalho de cooperação participativa. Dão a isso o nome popular de alongamento, mas há vertentes diferenciadas como meditação, esportes com desprendimento de adrenalina entre outros. Não importa, no desespero se faz qualquer negócio, qualquer picaretagem alimenta esperanças, até simpatia, modalidade já há muito em desuso e completamente fora de moda.

Os pensamentos andam, não, correm, voam, mergulham caóticos, são comboios e mais comboios desenfreados, não respeitam uma regra de trânsito se quer. É um balaio de gato que nem a aposentada em avançados anos com experiência em crochê, tricô e ponto-cruz desembaraça esse emaranhado. Credo! Será que a tecnologia DOS não vai lançar um programa que ordene, controle essa enxurrada de informação com velocidade de milhões de bits-luz por segundo? Enquanto o futuro não chega trazendo milagres tecnológicos-econômicos-amorosos-existenciais, o jeito é respirar fundo o monóxido de carbono que resta na atmosfera tensa e incompreensível, convidar o irmão Jacob e o João Pestana para a festa entorpecida de sensações contraditórias, apagar as luzes da cidade arruinada e rezar para que no fim do túnel ressurja o sonho.





Constatação [Feststellung]

17 03 2009

Sachliche Romanze

Erich Kästner

Als sie einander acht Jahre kannten
(und man darf sagen: sie kannten sich gut),
kam ihre Liebe plötzlich abhanden.
Wie andern Leuten ein Stock oder Hut.

Sie waren traurig, betrugen sich heiter,
versuchten Küsse, als ob nichts sei,
und sahen sich an und wußten nicht weiter.
Da weinte sie schließlich. Und er stand dabei.

Vom Fenster aus konnte man Schiffen winken.
Er sagte, es wäre schon Viertel nach Vier
und Zeit, irgendwo Kaffee zu trinken.
Nebenan übte ein Mensch Klavier.

Sie gingen ins kleinste Café am Ort
und rührten in ihren Tassen.
Am Abend saßen sie immer noch dort.
Sie saßen allein, und sie sprachen kein Wort
und konnten es einfach nicht fassen.