Folia em cinzas

26 02 2009

O carnaval para muitos, para a grande e avassaladora maioria, é sinônimo de folia, são três dias em que se permite transvestir, transgredir, ser o outro ou a si mesmo na essência. A festa é uma comemoração da vida mundana, carnal. Se bebe, se fuma, dança e pula. É um entusiasmo que vem do estômago, um êxtase do espírito humano naquilo que ele tem de mais humano: o desejo. É pelo desejo de viver o outro, desejo de explodir, de gritar, de gargalhar que o homem realiza, cria, reconstrói, é antes de tudo um desígnio.

Neste carnaval optei por não participar da folia coletiva, queria muito mais ser espectadora, observar anonimamente o movimento geral e as particularidades, mas não teve jeito, sou humana também afinal, o carnaval me invadiu e foi arrebatador. Começou com a vinda do porta-estandarde em azul e preto e da dama do paço com sua calunga de vestido e fitas coloridas, atrás seguidos do rei e da rainha entoando uma marcha amarela e azul, acompanhados pela baiana velha toda de branco e saia rodada, as baianas em botão, floridas das mais diversas cores e eu encarnei a baianada de vermelho e preto. Também tinham noivas acompanhadas por suas alfaias, seus xererês e seus maracás dando ritmo à multidão, seguindo o cortejo pelas ruas em meio ao calor da noite e dos corpos dançantes.

O carnaval é uma ode aos sentidos, que é o que há de mais humano, o homem se diferencia por isso dos outros animais, pois tem a capacidade de intepretar em emoções e valores os estímulos dos sentidos, ele não é só instinto. A música embala, os batuques, a melodia e o ritmo encontram ressonância nos corpos, nos membros, nas batidas do coração, no inspirar e expirar dos pulmões. As cores das fantasias e da pele suada dão o tom e também bombardeiam os olhos, que transtornados tateiam as formas delineadas de uma grande massa em movimento. O colorido das luzes cega e dirige o olhar, os cheiros embotam o espírito e a folia vai noite adentro, dentro de cada copo, cada corpo e seus desejos.

O tato dos corpos eufóricos entrelaçados, enroscados e imbuídos no som e suor, sedentos e famintos, também é parte e todo da folia carnavalesca, mas por fim chega a quarta feira e tudo é obrigado a voltar à normalidade, o corpo cansado e extenuado suspira um última vez e os olhos ainda mal-acostumados procuram ver as cores que restam entre as cinzas.