LOST

30 01 2009

Estive na semana passada em uma ilha, em um contexto surreal, apresentando paisagens paradoxais e realidades desiguais. A ilha, na verdade não é uma ilha, porém se encaixa na sua definição: porção de terra sem ligação com o continente. A ilha é uma península, mas seu acesso dificultoso e restrito se dá apenas por balsa.Curiosamente esta “ilha” não está numa baía, nem em alto mar, muito menos na faixa litorânea. Ela fica para além da serra do mar, na maior metróple da América latina, na 3ª maior cidade do continente americano. Estou falando sobre uma área de proteção ambiental – APA, localizada no sul da megalópole paulistana, na Represa Billings.

A ilha do Bororé é uma ilha da forma mais perniciosa e perversa: se considerarmos São Paulo como o continente, este não se relaciona com seu satélite, esta ilha desconexa e fragmentada. Quantos dos 19 milhões residentes na região metropolitana já foram ou se quer ouviram falar do Bororé? Eu mesma cheguei lá por acaso, perdida, e foi lá que me situei nessa realidade extremamente desfacelada e ineqüível que vivemos, anestesiados pela enxurrada de informação barata e imediatista, embotados com a corrida do consumo, pressionados pelo tic dos segundos do relógio. Vou contar uma coisa, isso não é metade da realidade, nem chega a um terço dela. Não temos justificativas para legitimar essa patifaria, esse cenário, mascarando a velha história das desigualdades sociais com o direito de crédito. O que vi nas 3 horas que percorri a ilha do Bororé mostram que o estreitamento da distância entre classes sociais está longe – muito mais longe que a ilha – de acontecer.

O teor desse texto poderia ser romântico e bucólico, poderia dizer que bonita é a paisagem da represa, ainda na balsa, com a sua margem repleta de garças, como é impactante ver o verde ainda se sobrepor e prevalescer sobre o cinza-vermelho das construções e que acima dos telhados e das copas paira neblina, que o ar é mais puro e mais úmido, a temperatura mais amena e o clima mais fresco. Poderia ainda dizer que vida tranquila a população residente leva, pescando, as crianças brincando na rua, a vida e o ritmo das casas no tempo de vilas ribeirinhas. Teria condições até de fazê-los vibrar afirmando a presença de porções da mata atlântica, vegetação cada vez mais rara e rarefeita.

Eu não posso me iludir, romantizando o vida “tranquila” dos moradores e muito menos seduzir os leitores com minha ilusão, amenizando a importância dos fatos. Não pretendo fazer discurso ambiental, nem me atrevo usar o capitalismo como vilão para anacronicamente defender idéias socialistas já falidas. A ilha do Bororé só é “parada” porque é de fato uma ilha. Parte da essência da democracia implica que deveres e direitos serão aplicados de forma homogênea e sem diferenciação em cada cidadão. Vivemos uma sub-democracia, a democracia do consumo e do mercado, e essa lógica não se aplica. Se ainda é possível naquele lugar viver de forma tão descompassadamente diversa da metrópole, é porque esta nossa redoma provinciana cosmopolita não está em rede e não se conecta àquela região. Não digo isso pensando ser vantajoso plugar a ilha do Bororé ao continente paulistano, constato apenas as enormes contradições e descontinuidades que nem imaginamos existir. É chocante.

Esperem, ainda não acabou, mais chocante é ver a paisagem verdejante interromper de repente, rasgada por um elemento novo, que em sua função de origem faz conexões, estreita distâncias e facilita o acesso; aqui ele segrega, interrompe, dilacera e desequilibra muito mais esta relação diferencial entre ilha e continente. São metros e mais metros quadrados, desmatados em uma região de preservação ambiental recente – o Bororé tornou-se APA em 2006 – está aí mais uma contradição, para desafogar o trânsito de veículos da região urbana, o trecho sul do rodoanel é uma obra que choca pela magnitude e por passar por cima, literalmente, das questões ambientais já tão frágeis e esgarçadas por ocupação irregular,descaso político, ausência de fiscalização e o mais fundamental: a completa ignorância da sociedade sobre a existência e importância de lugares como esse, se a sociedade não cobra, não cuida, já sabem, nada adianta fazer, lei, decreto, campanha, tudo isso é em vão.

O rodoanel é polêmico, vão me dizer que houve estudos de impacto ambiental, que a obra usa inovações técnicas, asfalto ecológico, e, quiçá, sinalização orgânica! Piadas à parte, já li sobre o rodoanel, cheguei a me convencer que não é de todo mal, tem lá suas vantagens. Isso foi antes de ir à ilha do Bororé. Compensação ambiental é outra polêmica, uma faca de dois gumes, mas paro por aqui. Voltemos à ilha. O rodoanel passa por lá, é onde a engenharia faz sua obra de arte mais ousada e faraônica: a ponte sobre um braço da Billings, duas, aliás, pista de ida e vinda para caminhões do interior desembocarem a produção- sem conturbar o já saturado trânsito de São Paulo e diminuir a poluição sonora e atmosférica na cidade – no porto de Santos. Perfeito. Não sei se isso se aplicará ao Bororé e tantos outros trechos “tranquilos” da região dos mananciais. Uma pena ainda defendermos ações decorrentes da ideologia rodo-desenvolvimentista, datada dos anos 50, arcaísmos, recalques da sociedade emergente.

A princípio, não haverá alça de acesso para o rodoanel nesse trecho específico. O Bororé continua ilhado, submetido ao continente, à mercê do mando e desmando político, orientado por interesses que nem de longe considera o bioma, o população, na maioria carente, quanto menos se preocupa em articular ilhas como essa à cidade. O que quero dizer é que áreas de preservação, de vulnerabilidade ambiental e/ou social, só serão preservadas de fato, se houver envolvimento da sociedade, se sentirmos que aquilo também nos pertence e que deve ser preservado. Ninguém, na grande mídia pelo menos, questionou, ou se quer titubeou, se o rodoanel deveria mesmo rasgar regiões que historicamente já sofrem dificuldades para serem preservadas. A gravidade e o buraco é bem maior que se imagina, se perdemos o manancial vizinho, a Guarapiranga – onde as obras do rodoanel tem maior impacto sócioambiental – responsável pelo abastecimento de 4 milhões, dentre esses os “formadores de opinião” e o maior PIB do país, a situação torna-se calamitosa.

Me surpreende ainda mais é pensar quantas ilhas, quantas outras realidades mascaradas existem nesse conurbado. Indo além, existem ilhas na esquina da sua casa, no fim da linha do ônibus que passa na Paulista, na cozinha experimental do bistrozinho cult da vila madalena. Estamos todos em ilhas, algumas com maior comunicação que outras, e a segregação só será aliviada, se compreendermos de uma vez por todas que todas essas ilhas estão no mesmo mar.





Para eleger um Obama

24 01 2009

O texto que se segue, de Mia Couto, mostra a reviravolta que a eleição de Obama provocou, mais que isso, seu desdobramento no mundo. Deixa um gostinho amargo, não existem muitos Obamas na África…

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?

Por Mia Couto

(escritor Moçambicano)

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: ” E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado ‘ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder – a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado – a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – as pessoas simples e os trabalhadores anónimos – festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.





DA ESSÊNCIA HUMANA

24 01 2009

BOM JULGAMENTO


Quem está com peso?

O que está sujo?

Ninguém sai inocente, ileso

Ninguém quer ser culpado, de se ter nojo


Fugir não adianta, não há o que fazer

Não há bons julgamentos, não adianta esconder

Desculpas existem, lembranças também

inesquecível o fato se mantém


Já está se lamentando?

Tem medo do sofrimento?

Vista-se com sujeira

Vomita na verdade


Quem é merecedor de tal penalidade?

O que é impossível para o perdão?

Alguém erra hoje e amanhã perdoa

Alguém esqueceu ontem o que prometeu


Então chega de sofrer antecipado

Esqueça antes dos outros

Abuse muito dos pecados


Prefira o cinismo em louros

à culpa em espinhos

Antes enganar em conjunto,

que assumir o erro sozinho.





NAVEG-AR

24 01 2009

ALTO MAR

O CORPO É PORTO

ONDE ABARCA

AFETO

O CORPO É BARCO

ONDE EMBALA

O FETO

CORPO QUE NÃO É PORTO

QUE NÃO É BARCO

ABORTO

AFETO

NÃO IMPORTO

NÃO APELO

O PORTO E O BARCO

APORTO

OU ABORTO?

APELO OU AFETO?

AFOITO

NAVEGO





POUSADOS TAMBÉM VOAM

23 01 2009

VÔO DO PÁSSARO

Pássaros

pacientes permanecem

pairando pousados

em galhos secos

Não cantam

São dois pássaros

pousados, penitentes

passam meses

toda a primavera

Não voam

Um pássaro

partiu

o outro

pasmo

em prantos





CHUVA INTERIOR

21 01 2009


Quando saia de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.

Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.

Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.

Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.

Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.

Mário Chamie





DO CAOS

21 01 2009

Me falta tempo. Sobram idéias.

Escrevi esta resenha depois da diretora do filme de “A via láctea”, Lina Chamie, ter apresentado o making of e ter nos contado um pouco mais sobre o filme, sua produção e roteiro. Fui surpreendida, esperava bem menos de um filme com a sinopse apresentada.

Lina Chamie nos defronta com peculiaridades lingüísticas em seu modo de fazer cinema. Isso ficou claro com a apresentação do making of do filme – outrora em cartaz nos cinemas – “A Via-Láctea”. Uma das peculiaridades está justamente em como o filme foi propriamente feito: as filmagens externas foram em quase que sua totalidade produzidas no cotidiano real da cidade. Não há cenário, a cidade participa verdadeiramente do filme, o que dá certo caráter “documental” a ele, contudo, é importante ressaltar que não se trata de um documentário, mas existe esta tensão entre a denúncia documental dos quadros reais da cidade com a história e personagens fictícios que ocupam e vivem no espaço, na metrópole caótica e que nos é comum, isso nos aproxima do filme, que todavia causa estranhamento com sua linguagem fragmentária e caótica. O foco dessas filmagens externas está sempre no tráfego, no trânsito engarrafado, por todos nós muito bem conhecido. Outra característica singular é a manipulação das imagens. Lina Chamie afirma que seu filme é atípico, quanto ao principal meio cinematográfico para se contar uma história, pois em A Via Láctea sua qualidade é imprecisa e fragmentária, porém é justamente através do caos, fortalecido pelo caos urbano, e da imprecisão, que o espectador é levado, à deriva, pela narrativa quase que cíclica e logo, na minha opinião, a diretora faz uso sim da manipulação, dos cortes e colagens para contar sua história. É claro que não conta de maneira tradicional e linear, mas se pode tirar conclusões a respeito do enredo.

A exibição do filme trouxe além de surpresas narrativas da história em sim, como também revelou outra riqueza não apresentada na sua complexidade no making of. São elementos (des-) estruturadores: a imagem, elemento natural do cinema, mas que ganha dinâmica pela repetição de frames, fragmentados do curso principal da história, que é sempre interrompida e a reprodução de cenas com mudanças de ângulos e falas; a sonoridade do filme, onde além da trilha sonora se introduz poemas declamados, que se repetem e se confundem; a lógica narrativa psíquica, ou seja, estamos no filme quase que inteiro imbuídos nas digressões labirínticas de Heitor (personagem principal), isto atrelado à não-linearidade e repetição dos acontecimentos confundem o espectador e constroem uma realidade paralela, virtual da própria história; a narrativa usa essa lógica e esta se sub-divide em camadas: o passado e sua memória (que pode ser transfigurada), o futuro e o seu desejo, que por si só não se atém à dados de realidade no geral e o presente que não propriamente é o que se está vivenciando no momento mas é o momento mais real presente na psique do personagem. Essas camadas se entrecruzam e se sobrepõem, não há uma cronologia temporal dos fatos, aliás nem os fatos têm uma ordem, por isso a possibilidade de sua repetição. Cada nova seqüência das mesmas cenas, com alterações substanciais, traz um novo sentido à ela. O filme trabalha com sentimentos “fortes”: o amor/paixão, o ciúmes, o medo, a perda e a morte. Nas palavras de Chamie, trabalha o sentimento e não o concreto, por isso se fragmenta, é etéreo. Mas também vejo que isso se espraia para os sentidos, ocorrência dada pelos elementos acima apresentados. Tudo serve de amálgama para construção do caos (ou seria a desconstrução da ordem?).

O elemento que é o cerne no cinema, a imagem, passa por um processo de sua desconstrução em A Via Láctea. A cidade aqui entra não apenas como pano de fundo, mas é ela que acelera e desacelera o ritmo do filme. O caos no fim é o que norteia o filme, o caos interior de Heitor se relaciona com o caos da cidade, ambos se confundem em certos momentos. A origem desse caos está na perda, no fim de um relacionamento amoroso que desencadeia a constatação de uma perda maior, do controle sobre a vida. Aqui cabe o paralelo com o caos urbano, não somos capazes de controlar e administrar nossa vida, pois dependemos da cidade, que empata, congestiona, impede. No entanto é nessa mesma cidade que se promove os encontros, que se vive o amor.

Ao meu ver, este filme foi feliz, usou recursos de recortes e repetições já conhecidos, como no filme Corra, Lola, corra, mas inova por utilizá-lo com modificações sutis. O resultado é um filme que conta uma história de amor, casual, comum, mas que intenciona narrar outra, e isso é proposital, pois é uma metáfora lingüística, ao passo que a (des-) construção transtorna o espectador que não espera pelo fim. Esse sentimento é forte, e não precisa de enredo, a perda se entende pelo contexto e se sente pelo fato, assim como o amor.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”
(“Dos três mal-amados”, João Cabral de Melo Neto)